Os usos do branco
por Marcelo Coelho
publicado originalmente em seu blog do jornal Folha de S. Paulo
http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/
Ainda ontem, terminei de escrever outro prefácio, desta vez para o romance A Gangorra, de um jovem escritor chamado Denny Yang. Ele tinha me mandado, há algum tempo, um livro dele, intitulado Isabelle (ed. FTD). Simpatizei com a maneira totalmente sincera e coloquial que o narrador utiliza desde o começo:
Acho que no fundo eu gostaria mesmo é de, de repente, sentar e escrever um livro. Sério mesmo. E um livro bom. Uma obra-prima. Um clássico da literatura. De todos os tempos. No começo, claro, eu apenas seria objeto de resenhas e críticas da mídia e dos meios especializados. Depois, após muito tempo, teria o reconhecimento póstumo, até vir a ser listado nos top dez do século. Quanta bobagem. Mas é verdade.
O tom, levemente cínico, ou ingenuamente cínico, quem sabe, prossegue ao longo livro:
Ligo a tevê, pois uma vez por semana passa um programa muito interessante de discussões a respeito do meio ambiente. Sou muito ligado a esse negócio de meio-ambiente, sabe?
Ou então:
De certa forma, é um pouco óbvio que entrei numa crise forte. Mas estou falando especificamente da crise existencial que me acometeu, juntamente com a depressão. Meu analista, por exemplo, não achava necessariamente que eu estava em crise existencial, mas no fundo eu sabia que estava.
É, talvez, um jogo com a tagarelice cotidiana, que aparece aqui ironizada. Isso, em Isabelle. No livro que prefaciei, há esse mesmo tonzinho nos diálogos entre o narrador e a namorada, que é “da elite”, como a história insiste em frisar. Mas a história, a meu ver, não interessa tanto: o que há de promissor, nesse romance, é a sensibilidade para a insignificância que rói, por dentro, quase todas as nossas conversas cotidianas; basta retirar, num livro, o seu verniz de literatura, para que isso apareça. É como em pintura: alguns escritores são ótimos nos tons escuros e brilhantes (gostaria de ser um deles), enquanto outros sabem usar muito bem o branco, o deslavado –e acho que Denny Yang está nessa categoria.


