O que nos interessa particularmente na literatura existencial, da qual, pensamos nós, Denny Yang é um representante legítimo, é a riqueza de significados presente em cada produção que pertence ao gênero. Neste tipo de literatura, em geral encontramos uma idéia central, ou melhor uma questão central, seguida de uma questão secundária (não por ser menos importante que a questão central em si, mas por ter esta última prioridade dentro da estrutura narrativa) mais ou menos explícita no texto, e finalmente uma ou mais questões implícitas, que o autor acaba inserindo conscientemente ou não.
Encontramos neste romance três idéias ou questões: um intérprete mais atento e qualificado com certeza encontraria mais. As duas primeiras, já analisadas no belo prefácio de Marcelo Coelho para esta obra, seriam: 1) a questão central, aliás muito bem ilustrada de forma metafórica pelo título do romance, que é o dilema vivido pelo protagonista Mário (que também é o narrador da história), um jovem guitarrista idealista, entre de um lado continuar a tocar rock experimental com sua banda mesmo que sem sucesso comercial e condenado a viver financeiramente apertado pelo resto da vida, e do outro aderir e se integrar ao mundo materialista de hoje, acertando sua vida pessoal mas deixando de lado todo ideal: a figura de seu tio Rigoberto, que na juventude fora um aspirante a escritor para depois se tornar banqueiro de bicho, e que agora está com câncer em fase terminal, é bastante incômoda para o protagonista, porque está inserida exatamente dentro deste dilema; 2) uma questão secundária, ligada inclusive à questão central, bastante importante em si porque todos nós cedo ou tarde temos de passar por ela, é a passagem da idade adolescente para a idade adulta, ou seja a passagem de um mundo de sonho e de divertimento para o mundo sério, duro e competitivo dos adultos: Mário e sua namorada Gabi, apesar de jovens adultos, ainda não parecem ter superado esta fase. De qualquer forma, a solução encontrada pelo autor para o protagonista, ou seja o meio-termo entre o idealismo e o materialismo representado pela aceitação de parte da herança do tio e seu investimento primeiramente na mal-sucedida banda e depois numa estação de rádio, resolve convenientemente o dilema.
No entanto, sendo que o autor desta resenha é um historiador, e não um especialista em teoria literária, e ainda menos um psicólogo, uma outra questão nos chamou mais a atenção, que é a do ambiente de cansaço histórico que domina o Ocidente nos dias atuais. Denny Yang, talvez inconscientemente (é muito mais fácil para o leitor perceber as diferentes nuances de uma obra literária do que para o próprio autor), conseguiu reproduzir perfeitamente aqui neste romance o ambiente ideológico deste início do século XXI: depois de um longo período iniciado com a Revolução de 1789 e encerrado com o fim da União Soviética em 1991, um período marcado por guerras, revoluções e lutas políticas, encontramos um Ocidente cansado, crente de que já cumpriu seu papel histórico e de que agora o importante, enquanto o Oriente prepara seu futuro triunfo (exemplos da ascensão da China e do reerguimento da Rússia pela mão de ferro de Vladimir Putin), é concentrar-se no problemas da vida pessoal evitando-se querelas ideológicas e as encrencas delas decorrentes. Na intriga de A Gangorra, esta questão está, no nosso entender, presente na situação do protagonista, cuja banda que faz um som de vanguarda não encontra ressonância numa sociedade indiferente, na figura do tio Rigoberto, que mesmo não tendo se tornado uma má pessoa deixou o idealismo de lado, e na figura da namorada Gabi, uma jovem de família abastada e de bom coração, mas que não parece ligar para absolutamente nada que vá além de seu pequeno mundo. O já citado meio-termo encontrado pelo autor é um final melancólico que exprime de certa forma o recuo da sociedade ocidental diante da grandeza, que segundo o imortal general De Gaulle significava um grande projeto nacional de potência mas que poderia significar também uma busca por algo que está acima do pequeno mundo, acima da vida cotidiana e acima do homem médio.
Denny Yang inicia portanto uma promissora carreira de romancista, sobretudo por sua capacidade de, através de uma intriga simples e acessível, captar o espírito da época na qual vive e transmiti-lo ao leitor. Esta tarefa seria mais fácil para um escritor pertencente às gerações futuras, cuja distância em relação aos nossos dias poderia levá-lo a analisá-los mais friamente.


