A gangorra, prefácio
por Marcelo Coelho
Estamos cercados de moralismo por todos os lados: no Brasil de 2007, o “certo” e o “errado” assumem dimensões esmagadoras na mente das pessoas, ao mesmo tempo em que a vida prática parece escapar com facilidade das categorias absolutas com que costumamos exercer nosso julgamento.
A “gangorra” a que se refere Denny Yang, no título deste livro, oscila claramente entre uma decisão correta, e outra não, que caberia ao protagonista Mário –um guitarrista com muitos ideais e pouca força de vontade—tomar no intervalo de algumas poucas horas. Mas o dilema relativamente simples que estrutura a narrativa constitui apenas o aspecto exterior, mais assimilável ao moralismo rígido do “certo” e do “errado”, que estamos habituados a empregar no cotidiano.
O mais interessante no texto de Yang, a meu ver, está em outro tipo de oscilação, onde se nota a delicadeza de seu talento de escritor. Tomem-se, por exemplo, os diálogos entre Mário e sua namorada, Gabi. Na rápida troca de frases entre os dois jovens, mais desconversa do que conversa, não estão em jogo opções nítidas quanto ao destino pessoal e ao futuro do relacionamento. Uma espécie de leveza, de descompromisso, é como que tentada, a despeito dos sentimentos dos personagens –que eles próprios não avaliam com segurança.
Mário e Gabi oscilam –e a “gangorra”, aqui, é mais sutil—entre falar sério e brincar a respeito de si mesmos; poderíamos chamar de “falso cinismo”, quem sabe, ou também de “ironia encabulada” o tom, aliás tão freqüente nas conversas de adolescentes, de um diálogo como este:
--Contos? –ela perguntou, animada.
--É, contos. Sabe o que é um conto? Conto é uma historinha que faz com que as pessoas como você durmam, de tão chato que acham.
--Eu sei o que é um conto, idiota. Conto é uma narrativa curta, menor que um romance. I-di-o-ta.
[...]
--Ah, cansei—a Gabi disse então, me olhando pela esguelha. –Não quero ler isso agora. Aliás, Mário, você não vai voltar para a cama?
--Engraçadinha.
O narrador continua no mesmo tom, entre gabola e amuado:
Minha cama é razoavelmente pequena, é chato ter que ficar dormindo mais de uma pessoa nesse cubículo que é o meu apartamento, ainda mais eu ter que dormir na mesma cama, de solteiro, com a Gabi, mesmo que seja a Gabi, que é uma pessoa bonita e legal, mas não dá para dormir duas pessoas na minha cama.
Eis um personagem, sem dúvida, pouco preparado para decisões graves a respeito do mundo e das pessoas. A alternativa ética diante da qual o enredo irá colocá-lo talvez seja mais fácil de ser resolvida do que uma segunda questão, que diz respeito a seus próprios sentimentos. E, nesse aspecto, a arte de Denny Yang está em deixar todas as dúvidas transparecerem das entrelinhas do diálogo. Graças a esse poder de evocar (pelo simples uso da pontuação ou da repetição de uma palavra) a voz e a presença reais dos personagens, o livro parece ganhar densidade exatamente nos momentos mais “vazios” da narrativa.
Talvez nessa dualidade –entre o conflito moral externo e aquele, levemente sugerido, no interior do protagonista—possamos ver uma equivalência com a situação, conhecida de qualquer brasileiro, de oscilar entre as normas oficiais do “certo” e do “errado” e a experiência de esquecê-las provisoriamente, com maior ou menor intensidade, no dia-a-dia.
Mas é sobretudo como retrato de outra oscilação –a da passagem, tão prolongada atualmente, da adolescência à vida adulta— que este livro pode ser entendido: o passo da ironia à seriedade, do simples ao complexo, do mundo interior ao exterior, surge aqui ao mesmo tempo como testemunho subjetivo e como texto consumado, por parte de um autor ainda jovem, mas já na posse segura de seus mecanismos de expressão.
