Tenho um novo mestre, que me ensina a jogar ténis. Mas ele não me ensina apenas a jogar ténis, ensina muitos conceitos e noções importantes que podem ser aplicados para tudo na vida.
Jogo ténis já faz muito tempo, e, na minha idade, é difícil achar um bom mestre, mas mestre mesmo.
Uma vez, eu estava no meu condomínio jogando ténis com o paredão, quando percebi, enfim, a sua presença, e percebi, enfim, que ele era um dos, senão o maior, mestre de ténis de todos os tempos.
Aos poucos, eu sempre voltava a jogar no mesmo local e na mesma hora, todos os dias, e ele, meu novo mestre, me ensinava sempre que não adiantava ter pressa: o aprendizado tinha que ser tijolinho por tijolinho, e apenas assim que eu conseguiria construir uma solidez igual a sua solidez.
Eu sempre dava a primeira bola, e ele devolvia - quando eu jogava certo - sempre com a mesma força e mesma intensidade, até para que eu visse o meu próprio jogo. Ele se fazia, muitas vezes, de uma espécie de espelho para mim.
Com o tempo, também, fui percebendo que essa técnica do espelho, que ele fazia, se parecia muito com uma espécie de sombra minha, e como se essa sombra fizesse com que eu visse meu próprio passado bem recente.
O meu novo mestre me ensinava as leis da acção e reacção, as leis de Newton, da física, a da gravidade, de Einstein, e me forçava a fazer cálculos matemáticos como numa geometria aritmética, mas sem equações formuladas – tudo dentro de minha cabeça, apenas.
Jogando com ele, sempre no meu condomínio, no mesmo local e na mesma hora, eu começava a entender o que ele queria me passar, a respeito de estratégias de jogo, de ritmo, de impor o ritmo, pois, sempre que eu aumentava muito o ritmo, ele também aumentava, mas só até certo ponto; ou seja, quando eu aumentava demais o ritmo, ele mantinha o ritmo dele, impondo o seu ritmo.
E, em relação aos cálculos geométricos que eu tinha que fazer constantemente, entendi que o jogo de ténis não passava de um jogo de xadrez, quando você realmente chegava num ponto como o meu, de dominar completamente a técnica do jogo: bater, sacar, jogar onde quiser, dar spin, slice, deixadinhas, lobby... primeiro saque, segundo saque... meu mestre me fazia visualizar que, quando eu estivesse jogando uma partida séria com outro jogador, aquilo nada mais era que um jogo de inteligência e xadrez.
Imaginei, jogando com meu mestre, um jogo com um adversário e, eu jogando muito forte na sua esquerda, no fundo da quadra, ele correria, dependendo de suas habilidades, e dependendo de minha posição dentro da quadra, ele, meu adversário imaginário, necessariamente jogaria na minha esquerda, no meu primeiro quadrado – no campo do saque.
E, assim em diante, eu poderia prever, quase, esses lances, eu já me prepararia para pegar no campo do saque, dando uma deixadinha, e se meu adversário também soubesse esse jogo de inteligência, provavelmente me daria um lobby, ao que eu deveria estar preparado; e assim por diante, como numa previsão estatística de lances.
E, mais do que tudo, jogar com meu novo mestre me dava muita consistência, pois ele nunca errava, apenas devolvia minhas bolas, exactamente como eu as mandava.
Eu ia deixando cada vez mais consistente minha técnica. Além do que, por meu mestre ser o próprio paredão, ele as vezes me confundia um pouco, como todo bom mestre, em não deixar claro se quem era o mestre era ele, ou no fundo, no fundo, eu próprio estava ensinando a mim mesmo.
Contudo, a coisa mais importante e valiosa que o meu novo mestre me ensinou – e continua ensinando - é o próprio valor da paciência, da solidez, de uma construção devagar e tijolinho por tijolinho, assim como o paredão se fez, assim como ele é. E, fazer-se uma pessoa, ou um excelente jogador de ténis, é, no fundo, o mesmo processo, pois o tempo, este sempre estará a nosso favor.


