Um excelente dia para tomar sorvete
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Storm Magazine

Ele sabia muito a respeito de meditação. Quando foram na sorveteria juntos, o amigo lhe perguntou:
- Mas… sabe… eu não consigo, não sei direito, como fazer esse negocio de meditação. Digo, acho muito difícil, acho muito complicado, eu fico cinco minutos fazendo, e começo a sentir como se tivesse alguém me torturando, ou coisa assim.
- Ué. Então por que você faz?
- Porque eu sei que é bom pra saúde. Não é porque essas coisas orientais estão na moda, mas é porque eu também li ou tenho lido em revistas de saúde que faz muito bem, relaxa, e tem um tipo de meditação, chamado meditação transcendental, que dizem que fazê-lo quinze minutos por dia, relaxa como se você tivesse dormido oito horas de sono…
- É a meditação que o David Lynch pratica, a meditação transcendental. Você quer sorvete do quê?
- De chocolate. Com pedaço de chocolate dentro. Sabe, sim, sei, inclusive o David Lynch estava aqui no Brasil divulgando um livro que ele escreveu a respeito, eu queria ter ido numa de suas palestras, mas minha mulher acabou não deixando eu ir, apesar que acho que ela é que começou essa historia toda de que eu tenho que meditar, ou no mínimo, fica me influenciando, como se realmente soubesse como meditar.
- Ela medita?
- Finge que. Fica todo dia, agora todo dia ela acorda cinco e meia da manhã, pois ela diz que nesse horário é uma meditação não para o corpo, mas para o espírito… sei, não tem nada de esotérico isso tudo, mas… ela não parece que está meditando profundamente, entende?
- Há quanto tempo ela medita?
- Agora deve fazer já uns três meses.
- Então é isso. E você?
- Eu, mais ou menos… umas duas, três semanas.
- Olha, o que eu posso dizer é que, dentro do que sei, dentro da minha opinião, que a meditação é um constante aprendizado, quer você acredite ou não. Digo, medito faz bastante tempo, e cada vez mais que medito, entro com mais facilidade nela, fico mais tempo concentrado, e ocorre menos pensamentos na minha mente.
- Como assim, “ocorrem menos pensamentos na sua mente”?
- Digo… nossos pensamentos, eles nunca param. Nunca param de ocorrer. Nem na meditação. Isso é um principio difícil de entender para muita gente, que a meditação ajuda a entender e a aceitar esse fato. A meditação não é, ao contrario do que muita gente pensa, “não-pensar-em-nada”. Ela é conseguir conviver num espaço com esse pensamentos que ocorrem em nós, por estarmos vivos, sermos organismos vivos, e nesse espaço, ficar um pouco convivendo e deixando esse espaço em silencio, em vazio, ou apenas… observando esse próprio pequeno espaço. Que é justamente criado com muito treino de meditação.
- Esse seu sorvete é de morango? Dizem que é muito bom o sorvete daqui, de morango.
- Essa loja é óptima, essa sorveteria. Ela é alemã, ou belga, sei lá.
- É caro pra burro. Mas… depois vamos tomar um café… mas…, entendi, você parece, pra falar a verdade, um cara que realmente sabe do que está falando a respeito desse negocio de meditação. Entendo, é…
- Eu comecei a meditar faz tempo, desde jovem… no começo, era também muito difícil, agora lembrando… e nem meditava muito, no começo… tinha fases, apenas… de meditar as vezes mais, as vezes nunca, as vezes nem entender o que raios é meditação…
- E com quem você aprendeu a meditar?
- Eu peguei uma coisinha aqui, na família, com outro lá, com um amigo, com um livro, comigo mesmo… um pouco de cada um, fui juntando, aperfeiçoando e desenvolvendo… acho que na maior parte, aprendi comigo mesmo… meio autodidata. No fundo, a meditação é uma técnica que tem um autodidatismo enorme, principalmente porque quando você está…
- … meditando, você está absolutamente sozinho. Entendo. Não tem ninguém que pode te orientar, na tua cabeça. Entendo. Só você mesmo. Alem do que, você não faz a mínima ideia do que é a meditação, fica lá sozinho, esperando que talvez escute um enorme “ohm”, que nunca vem, porque não existe. Digo, não você, os principiantes, como eu, acham assim… você sabe, você deve ter passado por isso…
- Sim, mas sabe que o “ohm” realmente existe?
- O que? … de escutar um enorme “ohm”, meditando, isso existe?
- Eu já escutei bastante vezes. Mas para mim, não é uma alucinação auditiva… ela também não é um “ohm”.
- E o que você escuta?
- Não é que eu escuto algo que não existe, quando eu estou medit…
- É um barulho? Um sino?
- Sim, é tipo um sino, ou melhor, eu sempre penso nessa imagem, nesse símbolo, do sino.
- Nossa, eu também. Sabe que eu já cheguei alguma vez nesse nível que você disse, de pensar num sino quando eu medito… digo, nesses últimos dias?
- Pois é.. mas eu não escuto um sino, entende? Eu penso num sino.
- Eu sei. Você não escuta coisa que não existe. Claro.
- Eu, quando medito muito, mas muito profundamente, e isso depois de vários e vários anos meditando… eu escuto um… digamos.. um som de silêncio. Isso. O som do silêncio. E ele é tão silencioso que… sei lá…
- Faz barulho.
- É. Algo do género. Não importa, o que importa é que a meditação sempre é uma técnica de auto conhecimento. Você cada vez mais entende melhor seu próprio processo mental, sabe conviver com ele, e cria esse espaço vazio, em branco, que pode ficar se observando, e convivendo com os diversos outros pensamentos que ocorrem na nossa psique.
- Difícil isso, não? Mas… o que extamente você ouve? Digo, aquele negócio do “ohm”?
- Eu… não é que eu escuto coisa, entende? Eu sou normal… que nem você…
- Eu escuto coisa… as vezes. Não tem problema… acho normal.. todo mundo escuta uma cosia estranha, uma vez ou outra… normal. Pode dizer.
- Normal? Você acha normal escutar coisa estr…
- Vai, meu! Pode dizer! Não vou contar pra ninguém!
- Tá bom, tá bom… eu escuto um negócio que parece…
- Uma campainha? Um sirene? Um ruído?
- Parece o “ohm”.
- Vai, sério, meu! Fala aí?
- Nossa…, você quer que eu fale, né?
- Fala aí.
- Tá… . Bom… eu escuto um som, certo? Não fala isso pra ninguém. Mas eu escuto um som… que parece… uma frequência de rádio, numa frequência muito alta, quando eu estou meditando em frequência e energia muito alta.
- Tá. mas qual é o som de uma frequência de rádio alta? É musica clássica, essa rádio? Estação de rock?
- É… sabia que você não ia entender. Acho que é o “ohm”, entende?
- Com certeza você ouve o “ohm”, cara. Você é um cara que ouve o “ohm”. (Irado!)
- Sei lá. Acho que não. Não sei.
- Não sei. (Irado!)
- É.
- Nossa, cara, você escuta o “ohm”!
- Ficou com inveja?
- Fiquei.
- É muito treino… muito treino, muito aprendizado, pra escutar uma coisa que não existe, e nem escutar essa coisa, pois ela não existe. É muito, muito treino.
- Vamos embora? Quer tomar café, ainda?
- Não. Vou pra casa, a Marilia tá me esperando.
- Legal… eu também, tenho umas coisas pra fazer, depois vou jogar bola, também… com aquela turma nova, que te falei, sabe?
- Meu, não conta pra ninguém esse negocio do “ohm”… tudo bem?
- Desencana, meu.
- Não conta pra ninguém, hein? Confio em você?
- Tá, meu, relaxa!
- Bom, vou por lá. Subir a Bela Cintra. E você, desce nas Estados Unidos?
- É… depois a gente se fala. Pode deixar, só vou contar essa coisa pra minha mulher…
- Do “ohm”?
- Não… disso que você falou que realmente faz sentido.


