O losango dele
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Verbo 21
Ele havia passado por apuros no passado, encrencas mentais que tinham fundamento em seu cenário real e exterior, havia finalmente se recuperado de toda aquela situação, não antes sem passar por outras encrencas mentais menores em seu cenário real e exterior, durante todos esses anos. Finalmente, acabava e colocava todo um ponto final nesse capítulo chamado "encrencas mentais", ao que tudo parecia.
A confluência de diversos fatores faziam crê-lo que construiu uma piscina enorme dentro de seu espírito, ou mente, ou coração, que contivesse todas as emoções com que fazia entrar mais profundamente nessas encrencas mentais - que realmente advinham de fora de si mesmo - chamava a isso "infra-estruturas de minha vida", que incluíam desde cuidar bem de sua saúde até estreitar e manter fortes relacionamentos humanos - porém tudo se reuniu numa situação apraz constrangedora, que o fez relembrar de todo o seu passado, desde essa primeira encrenca mental que tinha fundamento em seu cenário real e exterior: viu, com horror, depois de acordar de madrugada, o que havia lembrado - relembrado, ao passar por exata situação constrangedora - e que não era nada mais nada menos que ele mesmo e suas experiências e vivências advindas do passado, desde o ponto culminante chamado "primeira encrenca".
Nem Shakespeare e suas paranóias de relacionamento humano e jogos de amor e poder explicavam isso, nem Kafka e suas paranóias a respeito da figura do pai e da autoridade explicavam isso, embora havia lido com ardor estes ambos e essenciais autores para ele, viu com horror que tudo partia dentro dele mesmo e também infuenciava-o essa vivência literária, nao sem antes se precaver de que não poderia ficar nem ensimesmado em relação a seu auto-conhecimento que estava adquirindo no momento, nem somente em relação ao cenário exterior e real que realmente confluía em sua vida. Tentava, ao menos, nao ficar apenas naquele estado psicológico do auto como se estivesse num consultório psicanalítico, ou em análise constante de 7 dias por semana.
Olhou em sua volta, e realmente tudo lembrava Shakespeare, o cenário que confluiu, os vetores que agiam em relação a amor e ciúmes e traição e poder, misturado com os livros de Kafka que sempre afirmou a si mesmo como tendo produzido um valor universal, ou ao menos, entrado em consciência com esse valor universal.
Se horrorizou em relembrar, ao mesmo tempo que via seu cenário exterior e real, a primeira grande encrenca mental lá naquele ponto do passado, onde começou seu capítulo entitulado "encrencas mentais".
Se horrorizou a tal ponto que realmente misturou seus dois grandes autores dentro de sua psique, ao qual chamava muitas vezes de "anjos da guarda", e que aparentemente não tinham nada de anjos nem de guarda, misturou os dois grandes autores com a situação que vivenciava, assim como com a lembrança de seu passado e primeira encrenca.
E mais ainda: se horrorizou, ao acordar de madrugada depois desse novo cenário exterior e real, que ele se relacionava totalmente com seu cenário interior e real, em relação a suas vivências e experiências do passado.
Como se precisasse novamente entrar na sala de psicanálise onde fez um quase doutorado intensivo durante 7 anos, 7 dias por semana, modo de dizer, para se... autocriticar e examinar seus defeitos.
A mulher, que não era nem nunca seria sua, do cenário exterior, mexia com ele e sua psique, a mulher que entrava pela porta da frente mexia com a mulher antiga, a outra mulher apoiava e esclarecia ao mesmo tempo que dizia que ela nunca seria sua, nunca, e a mulher kafkiana do passado fazia o crer em situações quase-literárias, quase como seus dois anjos da guarda produziram, mas apenas no campo da encrenca mental. A última grande encrenca mental, a que faria colocar um ponto final em seu capítulo mal escrito e sofrido. Talvez literária e estilisticamente considerava: "tendo conteúdo".
O horror, ao acordar de madrugada e investigar essas questões, fez com que fosse diminuindo tal sensação horrível, aos poucos, até por já sentir ter passado por esse mesmo horror, em algum ponto do passado entre a primeira e última grande encrenca mental.
Conseguiu abrir espaçco em sua psique para que coubesse mais azulejos em sua piscina construída para abarcar todas suas emoções e pensamentos.
Parecia, ao que tudo indicava, que ele estava passando do ponto onde, como numa construção, acabava a infra-estrutura, e começava a estrutura.
Lembrou-se de sua idade, nesse momento, e se sentiu feito de tijolinhos por tijolinhos, e assim como tudo isso simbolizava, percebia que a estrutura nao precisava ser tão funda como a infra-estrutura, que ainda sim tinha que ser construída tijolinho por tijolinho, mas com mais suavidade e segurança, e principalmente: inércia.
As quatro mulheres que formavam um losango, aquela com qual não possuía, aquela com qual apoiava o losango, aquela que formava as pontas da figura geométrica, e a mulher kafkiana do passado, que tentava constantemente apagar uma das pontas do losango, quase tentando negar sua existência de figura geométrica estável e, se não equilibrada, em harmonia, pareciam lutar para encontrar qual a ponta do losango que pertencia a cada qual.
Ele não achava que estava dentro do losango.
Ele não achava que estava no centro do losango.
Ele não achava que o lonsango realmente existia; e nem achava, afinal, uma boa metáfora mental.
Mas precisou representá-la momentaneamente.
Achou, por fim, uma figura pessoal, familiar, e acolhedora.
Tentou, ao pensar tudo isso, aos poucos ser menos severo com sua autocrítica e busca momentânea de defeitos, afinal, tinha mais qualidades que defeitos, e não era ciumento.
E, afinal de contas, a mulher kafkiana que fazia parte de uma das pontas do losango, não era nem existia: tristemente e com dureza, admitiu que a figura não diferia de um triângulo.


