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Denny Yang

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Atores de teatro

de Denny Yang

 

 

publicado originalmente na revista Amálgama

http://www.amalgama.blog.br/

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na casa amarela do um condado de Massachussets, Dorothy estava observando as paredes, sem nada de especial nelas, a não ser uma teia de aranha na quina de uma delas, e, amassando mais uma bituca de cigarro no cinzeiro verde-água, tomou consciência de seus cabelos brancos, desgrenhados e desarrumados, juntados num estranho coque que apenas uma idosa de seu porte poderia fazer: olhou, enfim, o pacote que estava sobre a mesa, estava querendo olhar e ficar hipnotizada naquele pacote durante bastante tempo, já, sem coragem alguma de fazê-lo. Só depois que amassou o terceiro cigarro consecutivo, naquela casa onde morava sozinha, que ficou olhando o pacote sem abri-lo.

Em algum flash, a teia de aranha na quina das paredes formava algumas lembranças em Dorothy e naquela casa onde residia sozinha desde que seu filho partiu de casa, o último a partir daquela casa amarela, depois apenas de seu marido, que viera a falecer bastante precocemente.

No flash da teia de aranha, lembrou que fazia bolos de chocolate com cobertura de marshmallow, e lembrou-se de seu último flash, teve a mesma lembrança, há seis meses atrás, quando recebera um pacote muito parecido com o que estava diante dela, o bolo de chocolate com cobertura de marshmallow. Apenas conseguia, em suas memórias, se concentrar mais avidamente no bolo de chocolate que fazia em casa. Por vezes, seu filho também o comia.

E então… ficou olhando fixamente e de forma pasmática o pacote de papelão, recém-chegado pelos serviços de correio americano. Era o ano de 1966, e da mesma forma que quando recebera seus últimos pacotes – vinha recebendo esses pacotes de seis em seis meses já fazia uma década, sempre com uma carta anexada dentro, e um presente caro – , os flashs que tinha não paravam apenas no bolo de chocolate, indo além, mas de uma forma inconsciente, e, portanto, ignorável.

Numa delas, lembrava-se de um moço, que viveu naquela casa, aparentemente, quando ainda não tinha muito dinheiro, e o moço não queria de jeito nenhum trazer comida e alimento dignamente, como um homem de verdade deveria fazer em seus dezessete anos. O moço, sem dinheiro para comer, a casa sem alimento, queria apenas ser ator teatral. Ela, Dorothy, por nada desse mundo que deixaria aquele moço ser ator teatral, ou frequentar o teatro.

Um ano depois, o moço arrumou uma namorada, ex-atriz de teatro da off-off-broadway de Nova York. Ela tinha oito anos a mais que o rapaz, e com isso ele conseguiu um “emprego” no teatro daquele pequeno condado de Massachussets, com indicação da namorada. Aí, o moço não tinha mesmo razão para ficar naquela casa, não se portava como um homem, apenas como um eterno garoto.

Se lembrava da solidão que sentia, que sentira, todos aqueles anos, sozinha, naquela casa amarela! Melancólica, não conseguia tirar o sorriso da boca enquanto pasmaticamente observava o pacote de papelão sobre a mesa sem abri-lo.

*

E as cartas começaram a chegar, mas isso apenas muito tempo depois. Doze anos depois (ainda era 1950, e o pós-guerra ainda nem havia saído), e aquelas perturbadoras cartas de correio, que chegavam e chegavam, dizendo um tal homem que, primeiramente, havia por fim ido a Nova York e, depois de ter feito muito sucesso na off-broadway, junto com uma atriz que saía sempre nos jornais locais, na seção de coluna social… Relatando o quanto lamentava um tal rompimento, e que sentia que necessitava ajudar o país em seu pós-guerra, e sempre havia uma certa quantia em dólares dentro da carta.
Depois, o homem dizia que havia conseguido se candidatar pelo partido democrata, como deputy do condado. Posteriormente, mais cartas daquele homem, virando senador, em Washington… contando seus projetos, muito mais não-aprovados que aprovados… e a última vez, depois de dez anos recebendo as cartas, que viraram caros pacotes, dizendo que nas últimas eleições em Boston havia ganhado o posto de Prefeito daquela cidade universitária.

Dorothy, inconscientemente, tinha esses flashs. Melhor seria ignorá-los, mas não podia deixar de sentir admiração e respeito por aquele homem que se tornara prefeito de Boston, e finalmente, saindo de sua constante observação ao pacote de papelão, abriu-o lentamente, e, como todas as vezes, sentia que, de longe, uma pessoa a observava de fora da casa amarela.

 

 

 
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