Legado de um moço jovem
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Verbo 21
Uma vez, o moço jovem foi no supermercado que sempre ia e encontrou um coquetel de pães de queijo, num saco plástico, por um real e meio. Vinha doze pães de queijo. Ele comprou dois coquetéis, um ele comeu com um cafezinho e o outro ele guardou para depois, deixando-o no carro.
No caminho de volta para casa, viu um mendigo de rua que, com a perna mutilada, pedia dinheiro para se sustentar no semáforo. O moço jovem olhou para a carteira, e disse que não tinha dinheiro. Mas então teve a idéia: deu o coquetel de pães de queijo para o mendigo. Este agradeceu bastante, e assim foi a primeira vez que tiveram contato.
O moço jovem começou a fazer isso todo dia, mas dessa vez não comprava o coquetel de pães de queijo para si: comprava apenas para o mendigo de rua, que sempre o via no semáforo, naquele horário. Dava o coquetel, conversavam o tempo que se conversa num semáforo fechado, e se cumprimentavam. O moço reparava que o mendigo tinha muita alegria, a despeito de estar na rua e sem uma perna.
Algumas vezes, o moço não podia dar o coquetel, pois havia ocasiões que estava trânsito, e ele não podia encontrar o mendigo. Nessas horas, o mendigo ficava por um lado triste, realmente, porém por outro sentia-se feliz, amparado, reconfortado com a solidariedade do novo amigo.
O moço, jovem, fez isso durante dois anos seguidos, quase todo dia. Ele praticamente assegurava ao mendigo de rua um alimento diário para sua sobrevivência. Até que um dia ele parou de passar naquele semáforo.
O mendigo, a princípio, estranhou o fato. Pensava: "onde está o moço jovem?".
Por algum acaso da vida, viu um dia a irmã do moço jovem, num carro - ele às vezes via o moço jovem com sua irmã - e foi perguntar: "onde está o moço jovem?"
"Ele morreu, agora já faz dois meses", disse ela.
"E onde ele está enterrado", foi o que me ocorreu na cabeça.
"No cemitério da Paz", ela respondeu.
Sim, eu sou o mendigo da história. O moço jovem havia morrido, e não havia mais coquetéis de pães de queijo, nunca mais haveria.
Um dia, saí cedo e com meus trocados fui até o cemitério da Paz. Encontrei, com a ajuda do funcionário do cemitério, o túmulo onde se encontrava meu amigo. Lá, eu disse para ele:
"Não há mais coquetéis de pães de queijo, e não há ninguém que faça isso, como você fazia...".
Não houve resposta do outro lado. Continuei falando, e fiquei falando com ele, até me cansar: não havia resposta.
Voltei ao meu semáforo, lugar de meu sustento, depois de ter ido ao cemitério. No mesmo dia, encontrei um velho escritor - ele disse que era escritor - e contei-lhe a história do moço jovem. Ele lamentou minha perda. O velho escritor disse que escreveria a história do moço jovem, e eu fiquei contente porque não apenas eu poderia arranjar uma outra pessoa que me desse coquetéis de pães de queijo, como o velho escritor poderia sensibilizar alguém a dar coquetéis de pães de queijo para outras pessoas que não eu.


