Desenho
de Denny Yang
publicado originalmente na revista STORM MAGAZINE, de Portugal
A Cortina se abre e, no palco, há um mesa enorme com muitas peças no chão, mini peças, pequenas peças que formam um desenho, se juntado correctamente. Um homem se depara com a cena, ele entra no palco. Vê as peças no chão, centenas, dezenas, milhares de peças no chão, e não consegue voltar a sua cadeira de espectador. Nem eu consigo deixar de narrar essa historia e sair da cadeira de filósofo, estou agora na cadeira do autor da peca. Então continuo narrando. A historia segue em frente.
O homem não sabe o que fazer, mas ele intui que está neste palco por uma espécie de não-querer, mas não consegue mais sair desta cena, e deste palco. Infelizmente, ele pensa. Por que Deus me colocou nesse palco, nessa historia, nesse teatro, nesse desafio que não quero seguir adiante, ele pensa. Quem é o autor dessa peca, logo ele pensa depois, sabendo em sua fé que Deus é bom, e não pode ter sido ele quem lhe colocou nessa história, nesse palco, nesse teatro, nesse desafio. Mas eu, como autor dessa historia, que não consigo parar de escrever e segui-la adiante, também não sei porque não consigo deixar de contá-la, e tenho as mesmas questões que esse pobre homem nesse aparentemente infeliz desafio.
O homem forma um desenho em sua cabeça, ainda de pé no palco, olhando ao mesmo tempo duas peças, mini peças, do quebra-cabeças no chão, uma das duas de milhares mini peças que está no chão. O quebra cabeça está formado. Mas não sabe como montá-lo, nem sabe porque montá-lo, nem sabe porque está nessa situação, nesse palco, nesse teatro. Ele apenas espera que alguém esteja vendo toda a historia, todo o palco e possa interagir com ele, ele pede ajuda, gostaria, ao menos, de receber ajuda, ele está pronto para recebe-la. Ele, fascinado com o quebra cabeça e com a historia fantasmagórica, não sabe como deixar de aceitar este desafio, por maior ou menor que seja seu limite.
Vai, aos poucos, desenhando essa imagem em sua cabeça, e não consegue parar de imaginar, em sua imaginação, este desenho fantasmagórico que é justamente ele, ele, homem, num palco de teatro, com um narrador que sou eu contando a historia, com mil e milhares de peças de quebra-cabeças no chão, e ele justamente, em seu desenho mental e de sua imaginação, está no momento onde ele congelou de medo em ver esse desenho em sua imaginação, mas é um momento que ainda não aconteceu, e ele não entende como formar esse quebra-cabeças paradoxal, nem como desenhar o narrador da historia no quebra-cabeças, nem se deve formar, mas para onde ir, se ele não tem saída?
A Cortina do palco ainda não se fecha, e ele agradece por ela não ter fechado, seria não apenas o fim do acto, mas o fim de sua existência, ao menos isso que ele temia. Reconhece seu medo, e vai em frente, imagina que tem todo esse desejo em formar o quebra-cabeças que está no chão, e porque não? … já que ele não tem nada de melhor a fazer, e talvez ele tenha mesmo esse desejo, e por isso ele não consegue sair da cena teatral. Tenta montar o quebra-cabeças sem imaginar o que sairá dele, sem imaginar o retrato fantasmagórico dele no palco, tenta apenas montá-lo, pois esse é o desafio do quebra-cabeças, e enquanto ele vai pegando as peças no chão, e colocando na enorme mesa no palco, a Cortina enfim se fecha.



