Catarse
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Corsario
“Oi.”
“Oi, tudo bem?”
“Tudo.”
“E então, como foi seu fim de semana?”.
“Tudo ótimo. Ou melhor, mais ou menos. Vi aquela garota, de novo.”
“Você se refere a…”
“É. De novo”.
“E como foi o encontro?”.
“Foi tudo bem.”.
“Você está bem?”.
“Um pouco. Um pouco ansioso. Com vontade de escrever.”.
“Na última sessão, você disse várias vezes que… tem a ver com aquela coisa de…?”
“Não sei. Tem a ver com… não sei. Não quero escrever, porém. Não textos longos, não romances. Nem novelas. Talvez desse um conto.”
“Você disse, nas últimas sessões, que escrever, como eu estava dizendo…”
“Desculpe eu te interromper de novo. Queria falar da minha ansiedade. Sabe por que estou ansioso?”
“Não. Não sei porque você está ansioso.”.
“Por causa daquela garota, tivemos um diálogo.”
“Ah, sim?”
“Sim. Preciso contar isso, foi muito interessante. Eu estava no carro, certo? Fomos jantar fora, e então eu perguntei para ela, quem você acha que conhece mais o outro, digo, eu conheço mais você, ou você me conhece mais?
“Ah, sim… você perguntou isso para a…”
“Sim. Perguntei, porque ela sempre tem todo aquele ar misterioso, meio fechada, e eu sou quase que um livro aberto, falo de tudo o que me der na telha, tudo o que faz e não faz sentido, digamos.”
“E o que ela respondeu?”
“Que ela me conhece mais do que eu conheço ela. Ela assim achava.”
“E então?”
“E então ficamos batendo um papo, ou melhor, foi mais um monólogo. Fiquei dando duma de analista pra cima dela.”
“Como assim, analista? De analisar, psicanálise, você diz?”
“Tipo assim. Eu disse, sabe porque você é tão fechada, digo, nos ultimo meio ano em que nos conhecemos – pois apenas nos conhecemos meio ano, mais ou menos – e então eu disse, sabe porque você tem essa dificuldade de se abrir?, e ela disse, mas eu não tenho dificuldade em me abrir, simplesmente eu acho que não tenho nada especial para contar, e eu disse, mas você gosta, você prefere, que alguém fale ao seu lado, digo, você acha chato quando falam qualquer assunto com você, que não seja diretamente relacionado a um ponto objetivo?”
“Sim?”
“Daí ela disse, sim, quer dizer, acho ok, tudo bem falar, eu escuto, mas não acho grande coisa, digo, é melhor que fale do que não fale, e ela ficou falando assim, meio que bastante, parecia que estava se abrindo, certo? E então eu disse, sabe, nos últimos meses, desde que te conheço, acho que você melhorou muito um ponto, sabe? De conseguir se abrir mais, de conseguir confiar mais em si mesma, e, principalmente, de conseguir se expressar. Se expressar mais”
“E então?”
“Daí ela disse, mas eu já era assim, antes, e eu disse, era? Porque ela não parecia ser assim, e então eu disse, não de falar, digo, mas de se vestir, de passear, de expressar sorriso, de ficar contente… parece que seus sentimentos mais, digamos, negativos, ficaram mais leves…”
“E ela?”
“Daí.. ela falou que… espera aí, daí eu perguntei, antes, mas você gosta ou não gosta de gente que fala bastante, assim, de qualquer maneira, a seu lado, tipo eu, assim? E ela disse, as vezes gosto… gosto, sim, gosto… eu escuto. Claro, mas as vezes e´melhor ter a ver com o assunto, por exemplo, eu, ela falando, eu, eu acho que e´meio estranho uma pessoa vir para mim falar qualquer assunto, quando não tem nada a ver com o assunto, com o ponto, e ficar falando de alguma coisa da sua vida, ou sei lá o quê… e então eu disse: mas eu sei porque você e´assim, mais fechada, ou tão misteriosa, digamos.”
“E você realmente sabia?”
“Sabia.”
“E porque?”
“Eu disse para ela, você é assim, porque tem a ver com o seu negócio com o estrangeiro. Como assim, ela disse? Ela não entendeu nada, que nem você agora, com sua expressão… mas assim, daí eu disse, bom, sabe porque, eu acho que você não é igualzinha, exatamente, a todas as garotas daqui, entende? Você, digo, concordo com você, que todo mundo é igual, e sua história é nada mais do que qualquer outra história de qualquer outra pessoa, mas você não é que não diz outros assuntos, assim, de qualuer maneira, por causa disso… é todo esse negócio com estrangeiro, e não é apenas por que o seu astrólogo disse isso, que você iria em morar em outro país, ou porque você namora um estrangeiro, ou melhor, uma pessoa vinda de outro país, que nem eu… apesar de que isso tem um pouco, pois não são todas as garotas que querem namorar com estrangeiro”
“Concordo… aqui é assim mesmo.”
“Sim, e então eu disse, e mesmo o seu negócio com astrólogo, você querendo ou não acreditar nisso, em astrólogo, seja verdade ou não, mas você tem essa questão porque no fundo, no fundo, você própria quer, no fundo, morar no exterior, e não apenas porque o astrólogo disse, além do que, desde que te conheço, faz alguns meses, já, que vejo que você me apóia, mesmo eu não tendo tantos amigos assim, aqui, mesmo eu tendo apenas uma psicóloga que visito, e vejo meus colegas no trabalho que me mandaram aqui, e minha família longe, mas mesmo assim, você ainda quer ficar comigo… tudo bem, falo a lingua perfeitamente, já que meus pais são daqui, me educaram assim, mas mesmo assim, entende? Você é do tipo de pessoa que busca uma maior visão, saber como é o mundo lá fora, nesse país provinciano, e busca saber mais, ou melhor, conhecer mais, querer conhecer, e por isso que tem tanta paciência comigo, e porque gosta de mim, claro, sobretudo.”
“Então você acha que ela é assim, fechada, mais misteriosa, como você diz, porque ela gosta tanto, tem esse negócio com o estrangeiro?”
“Sim. Mais ou menos isso.”
“Não entendi, direito. O que ela gostar de estrangeiro tem a ver com ela não gostar de falar tanto, de ser misteriosa?”
“Acho que tem a ver com o fato de que ela não se identifica, muito, com o povo aqui. Que ela sempre viu como uma pessoa que queria mais, queria conhecer mais, acha muito limitado esse mundo ser esse país, apenas. Talvez desde criança ela seja assim.”
“E talvez isso tenha feito ela buscar coisas existenciais, como você disse nas últimas vezes, de escrever, de ser escritora, e dos ismos que ela tanto repete. Ou um equilíbrio, ou mesmo vice-versa: o fato de ela ter questões existenciais fez com que ela buscasse o estrangeiro.”
“Exatamente. Exatamente. Mas… voltando, bom, voltando ao diálogo, só pra contar o final.”
“Sim.”
“Eu perguntei para ela, mas no fundo, no fundo, uma parte, que seja, apenas, você gostaria de ser assim, de falar mais outros assuntos, como eu, assim, de qualquer maneira, sem necessariamente ter a ver com o assunto, com um ponto objetivo, e ela disse, talvez sim, acho que sim. Daí ela disse, mas eu ainda acho que… espera, sabe, vou te explicar porque eu não gosto de falar assim, porque sempre que falam comigo assim, e eu tenho que ouvir, eu acho desinteressante, e por isso, não quero falar para os outros, pois acho que os outros também vão achar desinteressante, entende? Entendo, eu disse. Mas… vou te falar a verdade. Sabe porque, porque você acha desinteressante? E ela disse: não. Eu disse: porque você, e eu disse bem sério, e rolou um clima bem estranho nessa hora…”
“Estranho?”
“É, sei lá… bom, eu disse, nesse clima: você acha desinteressante porque você não consegue, porque no fundo, você sabe que você não consegue falar desse jeito, assim, de qualquer maneira. Por isso você acha tão desinteressante, nas horas que ouve. E ela ficou olhando pra frente, meio pasma. É, é… é engraçado… daí eu continuei, porque você talvez, faz muito tempo, que não consegue, e você tem esse sentimento, porque a maioria das pessoas, se não todas, acha muito mais interessante quando tem alguém falando qualquer coisa, do que um silêncio cortante.”
“Nossa… ela deve ter ficado… não sei dizer…”
“É… foi bem interessante.”
“Bom, acho que essa história tem muito a dizer… ela ilustra, vou usar essa palavra, ilustra muito o seu momento atual, ultimo, ou recente, de estar voltando a se adaptar com seus conhecimentos adquiridos em relação a psicanálise, que você disse ter, desde que chegou na cidade, um ano atrás, perdido… parece um resgate de sua bagagem.”
“Sim.. e também, talvez, tenha a ver com o fato de que eu esteja fazendo análise já faz três meses, com você, e me lembra todo o meu processo de escrita, que eu fazia, antes de vir para cá.”
“Sim.”
“E talvez… quer dizer, no fundo, eu estou meio… querendo… que ela própria veja a minha bagagem, emocional, de conhecimento, de nome, que tenho, ou tinha, ou que permanece…”
“Mas não consegue expressar.”
“É. Não consigo.”


