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8 romances de

Denny Yang

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Bifurcação

de Denny Yang

 

 

publicado originalmente no CRONOPIOS

www.cronopios.com.br

 

 

 

Ele estava caminhando, como se fosse um andarilho, em seu caminho. Trazia consigo um bastão de madeira, que encontrara no chão durante seu percurso. Passara trilhas, montanhas, riachos, campos de flores... e ele sempre com seu bastão, para apoiá-lo em qualquer hora de maior fraqueza. Não usava chapéu.
Uma hora, se deparou com uma trilha larga, de terra e mato, retilínea e longa. Ele gostava de retas longas, grandes e largas, e andou feliz até onde o horizonte se punha. Foi andando e andando, seu caminho era longo, até que...
A trilha reta chegara ao fim, e, por uma incrível confluência do destino, havia um caminho que ia para a direita, e outro para a esquerda. Os dois caminhos exatamente iguais, e ambos os caminhos, até onde a vista dava - que era quase ao horizonte - se via exatamente a mesma paisagem. Ele tinha que escolher:
"Por qual caminho vou agora, pela direita ou esquerda?", perguntou a si mesmo.
"Ah, é fácil, confio em minha experiência, de tanto caminhar e andar, vou encontrar rapidamente meu caminho, e tudo será como foi essa longa e larga trilha reta!", pensou consigo mesmo.
Mas não foi tão fácil assim. Primeiramente, o homem decidiu pela esquerda, mas logo ponderou, "por que eu iria para a esquerda, se a direita é a mesma coisa?", e ficou na dúvida. Logo então, decidiu tentar ir pela direita, mas antes que colocasse seus pés no novo trajeto, pensou:
"Mas a esquerda foi minha idéia inicial, de modo que eu seria incoerente e confuso se mudasse de idéia, como se eu não tivesse palavra comigo mesmo. Pois eu sei que é uma escolha fácil". E foi indo para a esquerda.
Chegando no início do caminho da esquerda, pensou que "mas a direita pode ter alguma vista, algumas pessoas que nunca vi, depois do horizonte, e na esquerda pode ter um deserto ou um frio muito grande, insuportável, até, que eu nem consiga voltar, depois do mesmo horizonte".
E as coisas foram ficando difíceis para o nosso amigo, e foi ficando difícil a escolha, ele, que caminhava já fazia tanto tempo, dias e dias a fio, sem se deparar com uma confluência do destino que lhe prouvera tanto azar nessa hora, e azar, pois sentia agora apenas angústia, indecisão, medo de si mesmo, de não conseguir decidir. Ficou então bem no meio dos dois caminhos, o da direita e o da esquerda, respirou fundo, mas não adiantava, até que uma hora se sentou numa pedra que havia bem no centro. Pensou "estou perdendo meu tempo aqui, sentado", mas nada adiantava, pegou seu bastão, ficou observando seu apoio, o que o apoiara durante tanto tempo, e agora... ele era inútil. Era apenas uma ferramenta para a caminhada, que parecia estar paralisada.
Tentou usar sua experiência para decidir, sentado naquela pedra. Pensou em tudo o que já havia passado, lembrou de sua história, priorizou seus valores, tentou enfrentar a si mesmo, ficou analisando seu interior e a situação que decorrera até aquele momento. Pensou nos porquês de estar ali, pensou onde queria chegar, "mas o caminho que é o importante, não o objetivo", mas quando filosofava... piorava ainda mais a situação, e mais confuso ficava, o que o irritava, por sempre prezar tanto a sua autosegurança e auto-estima.
O dia foi se transformando em noite, e a noite em dia, e às vezes cochilava durante algumas horas, e os dias foram se passando, e ele não conseguia decidir. Não adiantava sua memória, nem sua inteligência, nem sua análise racional, nem enfrentar seus medos e angústias: ele estava paralisado. E continuava sentado na pedra, e uma hora chegou até a pegar seu bastão e, com tanta raiva do que estava lhe acontecendo, quebrou o bastão no seu joelho, partindo-o em dois pedaços agora inúteis:
"O que estou fazendo? Meu único amigo, destruí meu único amigo com essa indecisão..."
E ficou se sentindo culpado, depois de se sentir arrependido. E ficou com mais raiva de si mesmo.
Três dias se passaram, e suas providências alimentares estavam escasseando na sua mochila que trazia em suas costas. Pensou:
"Bem, agora tenho que decidir, tenho mais apenas um dia para decidir, pois senão, se eu ficar aqui sentado nesta pedra, morrerei de fome, pois em nenhum dos dois caminhos eu chegarei até onde minha vista alcança. Nem voltar mais pela longa trilha larga e reta adiantaria mais", e foram as suas vinte e quatro horas mais angustiantes que passara fazia muito tempo.
Pensando, pensando, usando sua memória, sua experiência de ter passado um longo caminho, e já era o dia seguinte, e pelos seus cálculos tinha apenas mais um minuto para decidir.
Rezou nesse último minuto, respirou fundo quando acabou sua reza, pensou "agora tenho que ir”.
Foi pelo caminho da esquerda. Ficou arrependido por alguns instantes durante seu novo trajeto, mas agora não tinha mais volta. Se voltasse, e fosse pela direita, segundo seus cálculos, ele morreria.

 

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