Universos Paralelos
de Denny Yang
publicado originalmente na revista VERBO 21
- Parar de fumar é uma coisa... assim.. transcedental.
- Desenvolva.
- Parar de fumar, primeiro, é uma grande mudança. Principalmente no meu caso, que usei muito o tabaco para me aliviar nos meus 4 ou 5 anos de crise brava. Em segundo lugar, parar de fumar tem muitos benefícios, que já sinto neste momento, de terceiro dia de ex-fumante. Você realmente passa da "vida de fumante" para a "vida de não-fumante". Muita coisa melhora, você acorda mais leve. Sua pele melhora - provavelmente tem muitas toxinas ingeridas nesses 13 anos de "vida de fumante", que começam a ser liberadas. Mas não acho que se deva parar bruscamente sem alguma compensação. Digo, você deve e pode até parar bruscamente, é um bom método, mas se deve compensar as vezes com uma ou outra tragada. Digo, não muito. No máximo, uns 3 ou 4 cigarros por dia, na fase inicial, de parar bruscamente. É o equivalente a aqueles rémedios que você toma para parar de fumar. Tenho medo de ter um colapso nervoso, se parar de fumar assim, bruscamente, sem nenhuma "compensação", como chamo esses 3 cigarros por dia.
- Como é esse medo?
- É um medo real, acho. Não sei se faz parte daqueles medos infundados, totalmente infudados. É um medo que te protege de um risco real. Não acho lógico uma pessoa fumar 13 anos, um cigarro por hora, durante 13 anos, sendo que 4 desses anos estava funcionando como um remédio de alívio para dores imensas e agudas, e, de repente, cortar totalmente aquele químico, aquela nicotina, que você sempre está ingerindo pela boca nesse tempo todo, e passar o resto da vida assim. Parece que a crise de abstinência ficará para sempre, dessa forma. Parece que assim, você ficará de certa forma traumatizado. Me vem a cabeça essa palavra, agora, traumatizado.
- Por que usa essa palavra?
- Traumatizado? Não sei. Me lembra, traumatizado, nesse caso, uma pessoa que está levando pequenas doses de choque, que fazem com que evite de fazer algo, no caso, esse hábito, de fumar.
- Entao é bom esse traumatizado? Para parar de fumar?
- Não. Traumatizado lembra tambem muitas outras coisas. Como por exemplo, coisas tão ruins, pesadelos reais que você sempre ficará marcado, por esse fato grotesco, ruim.
- Parece uma inversão, não? Parece que parar de fumar, que é uma coisa boa e positiva, virou um trauma. Seria o traumatizado, como você usa, o fato de fumar, ou o fato de ter-fumado-13-anos?
- Não sei. Mas pode ser. Talvez eu fique traumatizado por ter fumado tanto tempo, e agora estar largando o cigarro. Parece que já prevejo que foi uma experiência ruim e dolorosa, um pesadelo interminável. Foi? Me lembra arrependimento. Devo me arrepender? Creio que não. Não tive escolha. Não foi uma opção, apenas, foi um vício diário. Um vício social, um vício sociológico, um vício criado, pela indústria tabagista, pela indústria do fumo.
- Ah, sim, agora é tudo culpa da indústria tabagista. Da indústria do fumo.
- É. Minha culpa que não é. Ao menos, não vou ficar passando meu tempo arrependido, no momento em que estou concentrando minhas energias para parar de fumar. O que adianta ficar sentindo culpa? De ter fumado 13 anos?
- Só acho que não adianta colocar ou jogar toda a culpa na "indústria tabagista".
- Sociologicamente, ou historicamente, o cigarro é um hábito que vem de lá atrás. Se você for pensar, por que a propaganda da Marlboro tem um cowboy, num cavalo? Ou pelo menos, nas propagandas antigas? Porque essa imagem lembra Western, e Western lembra Go West, que é a conquista do Oeste, na América. A conquista do quê? Do território Oeste, onde estavam os indígenas. E os indígenas que tinham esse hábito de fumar, milenarmente, talvez.
- Sim, sociologicamente é muito interessante. Mas não acha que deveríamos nos concentrar no seu psicológico, individual, primeiro?
- Eu sei. Vou tentar fazer isso, nessa sessão. Aliás, não acho que a questão da sociologia ou indústria seja tão importante, assim, nesse caso de parar de fumar.
- E o que é importante?
- Muitas coisas. Preservar, nesse momento, seus pilares de vida. Pois seus hábitos mudam, você fica obsessivo em parar de fumar. Em constantemente estar parando de fumar. Eu abandonei o cigarro. Ou melhor, o cigarro me abandonou. Talvez eu havia criado um ambiente tão bom, ao meu redor, que andava numa frequência tão alta, que o cigarro nao me quis mais...
- Lindo. Poético. Mágico.
- Pois é. O poético as vezes tambem é real, e também existe. Num certo ponto, existe, sim.
- Sim. Nesse caso, que você conseguiu ou está conseguindo parar de fumar, existe mesmo. É muito esforço, e muito difícil o que você está fazendo. Parabéns.
-Obrigado. Sabe, acho que e' difícil, mesmo, nessa fase, porque você faz quase uma revisão de seu passado, da vida de não-fumante que você poderia ter levado. Ou, passando para a vida de não-fumante, você fica pensando se toda a sua bagagem cabe e se encaixa direitinho nessa nova vida. Porque antes, seu sistema e bagagem estava todo feito para caber na vida de fumante.
- E você faz essa revisão?
- Faço. Digo, inconscientemente. Não tem como não fazer. Mas acho que minha bagagem eu levo comigo, minhas experiências eu levo comigo, meu sistema vai junto, assim como minha personalidade, nessa vida de não-fumante que ingresso. Por mais que eu tenha parado com o hábito de fumar toda hora, literalmente, de colocar o cigarro na boca, de mexer o cigarro com os dedos e a mão, e tragar, de brincar com a fumaça, de acender, de apagar, de ir comprar, de ir procurar locais onde possa fumar, de limpar cinzeiros em casa... e, no mais, vou economizar uma boa grana, por mês, não comprando um maço mais todos os dias.
- É, e precisa, ou melhor, precisamos, no caso, essa crise econômica veio para ficar...
- É.
- (...).
- Mas penso que os fumantes gastam não apenas com cigarros, mas com isqueiros, também. Gasta-se muito dinheiro com isqueiro. De todo modo, eu fico fazendo esse monte de contas e cálculos, agora que abandonei o cigarro. Do tipo, quantos cigarros eu fumei na minha vida, quantos cigarros eu teria fumado nesses 3 dias em que parei, se eu não tivesse parado, quantos cigarros eu fumei nesses 3 dias que abandonei... a porcentagem entre um e outro, quanto eu gastei com cigarro, quanto eu estou economizando por mês, por dia, em relação a dinheiro... fazer essas contas me ajuda, aparentemente. Parece que eu organizo essa passagem de vida de fumante para vida de não-fumante. Em vez de hábitos de fumante, eu faço contas. Eu fico calculando hábitos e gastos.
- Lembra Economia.
- Exatamente. Eu estou fazendo uma economia de esforços. Economia de gastos. Economia de energia. Eu parar de fumar economizo energia. Economizo saúde.
- Parece que sim, mesmo.
- Então. Estou tentando levar essa bagagem comigo, de minhas experiências individuais, minha história pessoal, subjetiva, e racional, para esse novo universo.
- O universo do não-fumante, no caso.
- Sim. É como se fosse um universo paralelo, que anda paralelamente ao universo da vida de fumante, do universo do fumante. São dois mundos distintos, diferentes, que correm concomitantemente.
- Nao é muito exagerado, isso, não?
- Pode ser. Mas a princípio, não. Parece, isso sim, muito real a existência desses dois universos paralelos, nesse momento em que parei e abandonei o cigarro. Fico no fundo pensando: e se eu não tivesse parado de fumar?
- Como seria minha vida?



