Uma noite especial
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Meio Tom
João Pedro andava pela rua no inverno, pela calçada, com as mãos dentro de seu sobretudo preto, de chapéu - naquela época, todos andavam de chapéus - marrom. Usava sapatos que ganhara no dia anterior, na noite de Natal, de sua mãe, e lembrava, ainda andando na calçada, atravessando uma das Alamedas, seu irmão fantasiado de Santa Claus e dando presentes para toda a garotada, filhos e sobrinhos, e sorria ao fazer isso, enquanto que os transeuntes reparavam nele sorrateiramente, e sorriam quando João Pedro os olhava, como se o espírito deste estivesse tão alegre e em paz que exercia nos outros uma certa magia.Andando pela Alameda, os carros passavam, e parecia que ia nevar, mas nada de chuva nem de neve, apenas João Pedro, assobiando e cantarolando baixinho, com o olhar de seus olhos negros atentos para seu redor, sentiu como se todos reparassem nele, enquanto ele, João Pedro, apenas pensava em uma coisa: sua mulher, oh, sim, como era apaixonado pela sua mulher, Cláudia! Assoviava pensando nela, e esta noite, especialmente, estava inspirado para vê-la - era noite de Natal, dia 25 de dezembro - e quem sabe, quando voltasse em casa, Cláudia não hesitaria em ser convidada por ele a ir jantar e depois pegar um cinema da sessão da meia-noite...Continuava firme andando pela Alameda, queria voltar rápido em casa e ver sua mulher.Do outro lado da Alameda, avistou um senhor, também de chapéu marrom, bem mais velho que ele, de bigode e barba branca, e este sorriu quando viu João Pedro, apesar de que não se conheciam. O senhor vendia flores na rua, e João Pedro atravessou a Alameda, e foi falar com o velho senhor:- Boa noite.- Sim, está uma bela noite, sim senhor! Uma noite especial, pode-se reparar - disse o senhor.- Quanto é a rosa?- São $1,00, cada uma. O buquê de dúzia sai $10,00, sim, senhor.João Pedro conferiu em seu bolso da calça, esquecera a carteira, mas ainda tinha $7,00, em seu bolso esquerdo do sobretudo.- Faz um buquê de dúzia por $7,00? - perguntou João Pedro.- Claro que sim, como disse, essa é uma noite especial... - disse o senhor.
O senhor mais velho fez um belo buquê, com alguns arranjos, e deu para João Pedro. Este o pegou, e foi andando para casa, e se voltou, ainda, para sorrir ao velho, enquanto atravessava a Alameda para ir à Avenida, e o velho, ao invés de retribuir o sorriso gentil e alegre e em paz de João Pedro, o velho, oh, não, fez uma cara de horror, pois um carro passava velozmente enquanto João Pedro atravessava a Alameda, e não deu tempo de ninguém fazer nada, enquanto que as rosas caíam no chão no atropelamento fatal.


