A psicóloga social no quintal de casa
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Storm Magazine
Implodiram duas torres dentro de mim, ou apenas uma, numa visao horrivel que tive, ao assitir um filme. Foi uma cena surreal, pensei estar vendo um filme, de Hollywood, e talvez eu estava mesmo, naquele momento, quando duas das maiores torres do maior país do mundo, implodiram automaticamente, pior, atacado por terroristas suicidas”.
“ O que aconteceu?”, perguntou a planta zen.
“Sinto que só hoje, depois de 7 anos depois que tudo aconteceu, depois dessa visão fantasmagórica, alucinógena, eu entendo o que aconteceu. Dizem que todo sofrimento surreal, traumático, demora 7 anos para diluir, para mastigar, e para digerir”.
“Entendo, muito bom, que você voltou para seu caminho”.
“Sim, obrigada, planta zen. Sabe, ontem tive um sonho”.
“Mesmo, o que sonhou?”
“Sonhei com cobras. Com uma mulher vendendo antídotos para cobras, para seu veneno”.
“ Ah, sim. Você diz, voce quer continuar a pensar e falar consigo mesmo a respeito das torres do maior país do mundo, que implodiram, 7 anos atrás”.
“Pode ser. Sabe, sei que voce deve ser o, ou um, psicanalista mais inteligente do universo, e provavelmente, o mais sábio, pela sua paciência infinita de ficar neste lugar onde voce esta´, sem sair dai´. Sim, talvez eu tenha sonhado isso ontem por estar associando objetos fálicos as torres”.
“O que te lembra torres?”
“Nabokov. Ou melhor, Nostradamos.”
“Nabokov e Nostradamos... eles tem uma distância muito grande, professora. Nabokov escreveu Lolita, uma obra literária freudiana, e Nostradamos, era um profeta, ou melhor, numerólogo, digamos assim. Digamos assim, um previsor de futuro, e você sabe, previsores de futuro nem todo mundo acredita. Muito menos Nabokov, que era freudiano, ou qualquer melhor psicanalista do mundo, não acredita em previsão de futuro.”
“Sim, sim. Mas continuando... me lembra... torres..., me lembra imponência. Lembra 'Torre de Babel', que lembra a 'biblioteca de Alexandria'. Que me lembra 'civilização'”.
“Muito bom, pensar em civilização. Civilização tem algo a ver com conceitos reais, com aceitação do outro, aceitação de dependência para o outro, coisas producentes etc.”
“Sim, sim. E, me lembra tambem sonho americano, que tinha na época.”.
“Por que? Não tem mais?”
“Não, não sei, na e´poca, digo, que as torres caíram, foram implodidas, pelos terroristas, eu tentei não implodir as torres internamente, apesar de que sabia que algumas torres dentro de mim haviam sido implodidas. Ou precisavam ser implodidas. Eu precisava internalizar aquela imagem surreal, horrenda, do filme de Hollywood, eu precisava internalizar, ou melhor, internalizei. Ponto. Internalizei, coisa que não faço nem costumo fazer com fatos exteriores a mim mesmo, como tragédias naturais, tsunamis, furacões, terremotos... ou mesmo sequestros e assassinatos. Não, eu não internalizo, não me culpo, não me acuso, por coisas que não fiz, não tomo responsabilidade pelos outros, pela culpa dos outros. Mas dessa vez, por um instinto natural, fiz. Internalizei. Digo, 7 anos atrás, quando tudo aquilo aconteceu. Acho que foi um instinto humano, de sentir culpado. O maior país do mundo, a época, era muito próspero, parecia ter alcance e influência em sua maravilhosa cultura para todos os cantos do mundo. Para no´s aqui, inclusive...”.
“E não teve? Até hoje?”
“Sim, sim... mas continuando... torres, lembram a palavra World Trade Center, e lembra também dois altos edificios, edifícios muito, muito altos...”
“E porque se lembra dessas palavras?”
“Por que era assim que as torres se chamavam. World Trade Center. Naquele filme de Hollywood que vi, que parecia tão real, quando tudo aquilo aconteceu...”.
Silêncio de um minuto.
“Por que você ficou quieto, planta zen?”
“Nada, não. Ou melhor, nada”
“Você quer dizer... que o nada diz mais alto que tudo, certo?”
“Não, não era nada, mesmo, meu silêncio. Mas me diga, e o que você fez com a imagem que internalizou dentro de si, a culpa que carregou dentro de si, que não conseguiu deixar fora de si, como um fato qualquer do cotidiano? Queria saber para mim proprio...”
“Não foi um fato qualquer do cotidiano. Não sei porque. Por um lado foi, uma parte foi, outra não. Eu me esforcei para implodir duas torres de mim mesmo, daquilo que a imagem que vi no suposto filme representava para mim. Então pensei, quais torres eu posso implodir? A primeira coisa que quis implodir em mim mesmo, foi minha esperança de que o mundo não teria mais guerras.”
“E a segunda?”
“A segunda, minha saúde. Mas minha saúde eu não podia implodir, de jeito nenhum, então achei que implodir uma torre, apenas, significava implodir as duas torres que implodiram fora de mim, no plano exterior, mas tão real quanto”.
“Então implodiu sua esperança, que o mundo não haveria guerras?”
“Não... resolvi não implodir nada. Guardei para mim mesmo, eu não vou implodir nada, não tem nada a ver comigo mesmo isso, não fui eu quem joguei aviões la´ dentro”.
“E então você não internalizou, afinal de contas...: não levou a culpa...”
“Só depois de 7 anos, ontem, percebi que eu havia sim, internalizado, e naõ só isso, como levado a culpa, e levado a implodir uma torre dentro de minha psique, dentro de meu próprio plano subjetivo, mas o mais impressionante, e´que aconteceu naturalmente. Sem eu querer, conscientemente não querendo, internalizei”
“Mas aconteceu, isso o que voce quer dizer. As coisas que acontecem com a gente”
“E´. As coisas que acontecem com a gente. E para você, planta zen, qual foi a torre que você teve que implodir dentro de si mesmo?”
“A minha?Bom, naquele dia, do suposto filme de Hollywood, implodi minha autoconfiança, a respeito do capitalismo, das nossas noções de qualidade de vida, implodi minha eterna paciência, implodi minha passividade frente a questões mundiais, universais, parti para a ação. Implodi, no fundo, uma técnica zen, que guardei de meu maior mestre zen que tive, um escritor zen-budista americano. Ele está meditando no momento. Ele havia me ensinado que quando duas vezes se diz não, é porque é não, mas as vezes, e´que apenas uma palavra anulou a outra. Ele havia me ensinado essa técnica, de relacionamento. De assim, continuar em meu caminho com integridade. Acho que no fundo, queremos, queríamos, implodir a torre mais valiosa que representava para nós próprios.”
“Preciso ir para a faculdade, depois conversamos, hoje vou dar aula. Quer ir?”
“Nem no seu coração vou junto, professora. Além do que, odeio sua materia de psicologia social.”
“Esta´bem, então. No fundo, talvez, o que senti nesses 7 anos foram impotência masculina...”
“Ja te disse, mestra...precisa ler mais Deleuze, mestra, e não ficar apenas no Édipo, ok?"
“Eu sei, planta zen, eu sei...”
Silêncio de um minuto.
“E porque ficou calada agora, mestra?”
“Porque acho que saí de meu luto, daquela imagem catastrófica que vi. Acho que saí, em algum plano, do filme de Hollywood que entrei dentro, para enxergar aos poucos, e ja´faz um tempo, a realidade. E acho que consegui entender, que implodir naturalmente minhas torres, significava apenas que a torre, ela continuara´existindo dentro de mim, não como objeto material nem físico, mas como memória, como afeto. Como memória coletiva, memória social. Sinto ter recuperado algo valioso dentro de mim. Em algum plano.”
“Os japoneses dizem essa coisa da memória social, do coletivo, para quando morrem pessoas. Que eles ficam, seu legado, na memória coletiva, essa é sua nova existência. Morreram muita gente, não?”
“Continua morrendo. Tristemente.”
“ Eu vejo a torre que você vê, mestra. Eu vejo a torre que você preservou dentro de sua afetividade, de sua psique, de seu mundo emocional. Eu vejo, e na verdade, te revelo que as torres, do suposto filme, não implodiram naquele suposto filme, elas, para ser mais preciso, explodiram na realidade. Há uma grande diferença entre essas duas palavras. Explodir e implodir. Mas você, implodindo sua própria torre pessoal, de mais valioso que havia dentro de si mesma, que é a esperança num mundo melhor, conseguiu superar muita coisa, e conseguiu assim resgatar a memória e seu passado, que nunca foi renegado, por maior que fosse seu medo de que ele fosse anulado. Afinal, quiseram destruir... justamente... a memória coletiva. O que te lembra essa palavra, professora? Memória coletiva? ”
“Entendo o que quer dizer, planta zen. Acho que também tenho minha própria técnica zen, de não me deixar anular, de preservar minha memória, minhas coisas valiosas. Mas respondendo. Lembra: Marx. Lembra: História. Lembra: a marcha da História. Lembra: civilização. Lembra: sobrevivência. Lembra: transferência de culpa. Lembra: 'toda generalização e´ burra'.".
“Vou meditar no que disse, mestra. Boa aula para você e seus alunos”.
“São seus alunos, também, planta zen, na medida em que tanto me ensina.”
“Não, professora. São apenas... seus alunos."


