Um coração forte
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Corsário
Um tiro, logo na frente do meu carro. O trânsito, parado.
O assaltante ainda teve tempo de tirar o corpo do motorista - no carro bem na minha frente -, simplesmente jogou-o na rua, ele ensaguentado. Daí o assaltante saiu a toda cortando o sinal vermelho.Fiquei pasmo. Saí do carro, todos atrás de mim buzinando, os que entendiam o que acontecia saíam correndo, outros cortavam também o sinal para sair daquela cena horrível. O motor de meu carro ainda ligado.
O tiro, pelo que havia verificado, fora do lado de seu coração. Talvez bem no meio do coração dele, eu não sabia, só sabia que ele ainda respirava, e, aparentemente, permanecia lúcido - apesar de muito assustado.
"Calma, tudo vai dar certo".
Peguei meu celular, segurando na mão do ferido. Só soltei para discar emergência. Não dava sinal de telefone naquela avenida.
Ele estava morrendo, eu perguntei para ele, "você tem que entrarno meu carro, o celular não funciona, não consigo ligar para ambulância nenhuma, tem um pronto-socorro aqui perto, cinco minutos de carro, eu te levo, posso, quer?".
"Eu não vou aguentar cinco minutos...", ele disse muito assustado, e de tão assustado, talvez anestesiado da dor do tiro.
Peguei-o pelos braços e fui carregando ele com a ajuda de meu ombro, um transeunte me ajudou a abrir a porta do passageiro para que ele entrasse, ele sentou e corri para o volante.
"Você vai ficar bem", eu disse.
Cortei o sinal, cortei outro, e outro, fui à toda. Ele dizia que ia morrer, que estava com medo que ia morrer, eu falei "você não vai morrer!, eu não vou deixar esse filha da puta te matar assim!, você não vai deixar esse filha da puta te matar assim!, não deixa, entendeu?!", ele disse que "acho que não vou aguentar, eu estou morrendo", e cheguei no pronto-socorro.
***
No início da tarde - o assalto fora pela manhã -, me ligam do hospital, no celular. Ele havia sobrevivido, e estava fora de perigo. Mais, queria muito falar comigo para me agradecer.
Gritei de felicidade por ele ter sobrevivido, gritei no meio da rua. Gritei de felicidade, de satisfação por ele ter se salvado, de orgulho de mim mesmo por tê-lo ajudado. Mas eu estava nervoso quanto a este encontro. Ele queria me ver. E eu não sabia como agir. Nervoso, fui à pe´para o hospital, para ver se eu me acalmava. Eu não queria que ele me agradecesse, nem que dissesse coisas como "você salvou minha vida", "devo a vida a você", ou "os árabes dizem que quando alguém salva sua vida, você sempre será responsável por ela", ou qualquer outra coisa assim. Eu não poderia ouvir esse tipo de coisa naquela situação.
Fiquei, andando ao hospital, imaginando um monte de cenas e possíveis situações. Eu, nervoso. Ele, na cama, enfaixado.
Ele nem devia se lembrar de mim.
Imaginando, imaginando sem parar.
Até que parei uma hora. Dei meia-volta de meu caminho, parei numa operadora de celular e pedi para que trocassem meu número do chip. O antigo, joguei fora.
Ele não devia nada a mim, e muito menos eu a ele.


