O portal do sonho vermelho
de Denny Yang
publicado originalmente na Verbo 21

Minha história começa no dia em que estava vendo televisão, no auge de meus sessenta e poucos anos. Mas eu já estava assim, desse jeito, e pensando nessa história, já fazia alguns dias. Eu, do Ocidente, depois de tanto estudar sociologia, filosofia e literatura ocidental, me deparei com um livro de Edward Said, e, sem lê-lo, me pus a examinar minha consciência e saber até que ponto eu respeitava o Oriente. Foi aí que comecei a enxergar tudo o que estava se passando.
Eu disse que a minha história comecava assim, mas afinal de contas, nao era a minha história. Foi o que eu vi, ou enxerguei, de tudo o que se passava no Oriente desde entao, desde a História com H maiúsculo e seu começo, desde Confúcio, Lao –tze, o Zen, e o livro do sonho vermelho.
E foi no momento que eu estava vendo distraidamente televisão, que consegui enxergar tudo o que se passava.
O cara era um escritor, e eu achava que o conhecia. Ele estava aparentemente viajando no Oriente, com sua família, e eu já tinha lido um livro seu, e sempre, sempre, achava que ele estava num chat da internet onde eu sempre entrava. Havia nesse chat, tambem, uma renomada professora de psicologia e filosofia com quem sempre eu me correspondia, desde que era professor em Paris. E tinha esse cara, que tinha o nick name de um livro do Salinger, chamado Holden Caulfield, e desde um dia em que ele disse que um amigo meu, professor de História no Brasil, era gay, eu não queria mais falar com ele. Até queria, ele parecia ser extremamente simpatico, divertido, e carismático, mas não dava mais para falar com ele depois que ele chamou-o de gay.
Um dia, vendo seu blog, me deparei com o que estava acontecendo no Oriente. Ou o que sempre aconteceu. Ele disse, num artigo em seu blog, que a filosofia oriental era como se fosse uma flecha com espirais no meio, e a filosofia ocidental, uma escadaria retilínea e infinita. Pensei, em meio a altíssimas turbulências e crises financeiras e guerras pelo mundo todo, que oras, havia, enfim, alguém que se preocupava ainda em filosofia, como se tivesse que unificar a física quântica com a teoria da relatividade einsteniana.
Nesse momento, pensei em todos as idiotices que a pós-modernidade havia gerado, com o advento do estruturalismo, e passei a acompanhar mais de perto seu blog e suas idéias.
De alguma forma, talvez pela minha idade, eu sempre havia também tido uma fascinação pelo Oriente, pela divisão entre Oriente e Ocidente, e pela questão universal da divisão, e havia algum tempo que eu já havia começado a fazer yoga e meditação. E foi numas dessas meditações que me pareceu que eu vi – como num insight freudiano – esse escritor chamado Holden Caulfield, no antigo chat, e o vi como se dizendo que estava fechando finalmente a porta do Oriente ao Ocidente. E, por um breve instante, me lembrei de um filme de Fellini chamado "Oito e meio", e nesse momento saí de minha meditação, e entrei imediatamente, como numa madeleine prosutiana, a enxergar e analisar profundamente e afinal chegar num resultado de meu exame de consciência provocado pelo livro do Edward Said.
Afinal, o livro do Said não falava do Oriente em si, e mais do Oriente Médio. E como numa flecha espirálica, enxerguei tudo o que meu amigo Holden Caulfield estava passando e querendo me passar.
Você sabe, se você já foi ao Oriente, como as coisas são pacíficas ali, interiormente, tudo não acontece como no Ocidente, como no Brasil, por exemplo, que parece que você está numa novela B mexicana ou coreana de televisão. Não, você está num lugar onde não precisa dar e receber e testar conselhos a toda hora, para qualquer um, e qualquer transeunte que passa na sua frente não exige nem permite ser “analisado”, nem interferido em sua vida, com a força do pensamento que gera expressões automáticas no corpo ou linguagem. Não, o Oriente é estático, a História continua, claro, sendo linear, mas as coisas parecem mais lentas, aparentemente, talvez até pela sábia paciência dos orientais.
Um amigo meu de História Moderna, sempre me dizia, a China quem começou essa coisa tão zen, do que chamamos de zen no Ocidente, de calma, paz e paciência, do estático porém indo para frente, e dizia que a China, por ser ensimesmada desde sempre como país, até a ponto de construir uma muralha que desse para ver integralmente da Lua, que ela quem havia gerado basicamente a filosofia oriental. O Holden Caulfiled, não obstante, escreveu em seu blog a história do nascimento da filosofia zen, o que fazia muito sentido, se eu analisasse sociologicamente, como ex-professor de universidade emParis.
Dizia ele que, basicamente, com a história do Sexto Mestre, que originava o zen, em virtude de uma combinação entre pragmatismo e o não-pensar-em-absolutamente-nada, que é o que a maioria das pessoas acha que o zen é. Mas em seu blog, o Holden – se é que ele me permite chamá-lo assim – escreve que é a combinacao, do trabalho, com vezes que não se pensa em nada, e nesse dia que comecei, mentalmente, a criar e desenvolver essa história na minha cabeça, de que nesse momentos em que páram as coisas no Oriente, e começa uma espiral crescente, é o momento que começa a soup-opera dos orientais, e ela não é, digo, afirmo obliquamente, não é uma novela B mexicana ou coreana de televisão, ela é, isto sim, sempre, sempre que começa a espiral crescente dentro da flecha espirálica da paciente história oriental, ela é um clássico da literatura chinesa, que muito se parece com o livro do sonho vermelho – o maior clássico da literatura chinesa – e que tem a ver com um portal, que se abre e fecha, sempre que a paciente flecha da história oriental entra numa espiral crescente, e a porta do Oriente se abre, nesse momento, para entrar o conhecimento que o Ocidente traz, em sua filosofia que cresce como uma escadaria infinita e retilínea, e o portão do Oriente, assim como naquele filme do Bairro Perdido, se abre então, para que todos os carregados com os valores orientais e dentro deste portão, fiquem a mercê dessa soap-opera circular da qual chamarei de: “um sonho vermelho”.
E “o sonho vermelho” é basicamente esse livro, essaa história, isso, essa espiral crescente, que sempre, de tempos em tempos, se repete, e se acumula, a mesma história, “o sonho vermelho”, a absorção do Oriente para com a filosofia ocidental, principalmente quando esta sobe mais um degrau, digamos, do existencialismo para o estruturalismo, e ninguém traz consigo essa chave que fecha o portão do Oriente, a chave sempre está no Oriente, pois ela sempre se fecha de dentro.
Eis o mistério do Oriente, que não se desvenda, mas se entende, ou se intui, não sei até o momento. E, dentro de “o sonho vermelho”, ao que intuí, são escolhidas duas pessoas, que respeitaram muito o Oriente a vida toda, suas questões e sua divisão com o Ocidente, e que carregam consigo o conhecimento para fechar esse portão, muito difícil de ser fechado, com técnicas que apenas eles – eles dois – podem fazê-lo fechar.
Sim, tudo isso, dito da boca para fora de um sociólogo e ex-professor, pode parecer que nunca li ou fiz psicanálise, a questão do mágico, eu sei, mas vocês nao entendem, não tem a ver com o mágico, não tem a ver com o escape, tem a ver com o mistério do Oriente. E, nessa hora em que abre o portão, e, juro por Deus, não foi o Holden Caulfield quem escreveu isso em seu blog, mas que começou toda essa visão e pensamentos imaginativos desde que entrei naquela madeleine proustiana, ao pensar num filme de Fellini, e revisei como numa máquina do tempo a ver todo o meu passado num filme ultra-rápido, todos estão a mercê do destino, todos que estão dentro do portão.
E o portão se abriu, dessa vez, e apenas o Holden Caulfield, e uma cantora internacional, ao que eu intuía, conseguiriam fechar o portão dessa vez.
São pessoas muito especiais que fecham o portão. E essas pessoas que fecham o portão, ao receberem o importante convite que o Oriente lhes dá, sofrem bastante para fechá-lo. Parece como um teste para os dois, e sempre são dois, de dois em dois, como numa dupla de psicanálise.
Eles, digo, não necessariamente se conhecem, mas certamente intuem a existência um do outro. Como o homem duplo em Joseph Conrad e seu “Coração nas Trevas”, ou como num livro de Don delillo, como “A artista do corpo”, é fantasmagórico, e a pessoa que a carregava, dessa vez, a questão ocidental ísmica da Subjetividade, nessa espiral que começava a crescer, como sempre nas soup-operas chinesas havia um grande tema, e desta vez este tema se chamava “Subjetividade”.
Dizem que a chave do Oriente escolhe apenas as pessoas que realmente compreendem a questão a ser tratada, e que sempre respeitaram o Oriente, para fechar o portão. São pessoas muito especiais. Antigamente, nos anos quarenta, um general chinês junto com um soldado americano que posteriormente virou escritor, fecharam juntos o portão, em meio ao fim da Segunda guerra mundial. Quer dizer, ninguém diz, é o que eu intuo, no momento lendo o livro do sonho vermelho, o que eu vi, o que eu penso, dentro de minha filosofia ocidental, apenas, dentro de minhas meditações. Dizem também que um famoso guitarrista, junto com uma artista francesa, também fecharam o portão, na época do estruturalismo francês. Dizem, não, ouvi dizer ou intui. Dizem que depois, antes dos atentados terrosistas de 2001, o portão se fechou desde 1990 e poucos até depois de comecar o milênio, sendo um escritor americano muito recluso e uma historiadora brasileira que conhecia muito de feitiçaria e magia africanas, foram eles quem fecharam a porta, com a ajuda de muita gente.
Depois, duas celebridades americanas, depois duas orientais muito simples e bonitas, e dizem que muito anos antes, Confúcio chegou a fechar a porta sozinho, mas nao acredito, talvez junto com algum discípulo seu, mas isso eu não sei ao certo, digo “dizem” mas é o que eu vi em minhas visões, o que acredito, entende?
E dizem que uma aeromoça com um cara muito bom também fechou a porta, e eles sempre copnseguem fechar a porta, e ver quem será o próximo a fechá-la, aliás, o Oriente como um todo, depois que a porta se fecha, já intui qual sera a próxima grande questão que será tratada, ou tema, e dessa vez, eu sabia que era o próprio Holden Caulfield e aquela cantora internacional, que era descendente de orientais, assim como ele.
Mas essa não é a minha história, é a de Holden Caulfield do chat, o nick name, e a minha história, apenas, em relacão ao orientalismo, começa apenas quando tive essa visão, vendo televisão distraidamente, de quem eram ou seriam os próximos a fecharem o portão do Oriente, os donos da chave da vez, e eu estava justamente com medo pois eu, eu disse que antes eu não sabia o mistério do Oriente, ainda, apenas intuía, claro, pois eu não havia fechado ainda o portão, não me considerava tão especial assim, mas em minhas meditacões, por Deus, eu recebi o convite, e a própria professora de psicologia e filosofia com quem eu sempre me correspondia também, seria minhas dupla, e seria tratado um grande tema, em meio ao que eu intuía um destino maktubiano,o tema justamente da "psicologia social" na próxima espiral, que apenas eu e a professora dominávamos o tema psicologia social no Ocidente e respeitávamos o Oriente a ponto de conseguir ajudar a echar o portão, e por um momento, juro que por um momento, senti o Holden Caulfiled me dizendo,
“ cuidado, professor, dura mais tempo do que você imagina”, e eu ainda tive tempo, em minhas meditações, de perguntá-lo “quanto tempo”, ao que ele respondeu “oito dias e meio, professor, não sei porque, talvez tenha a ver com a junção do calendário lunar com o copérnico, mas são oito dias e meio...".


