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Denny Yang

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O pão nosso de cada dia

de Denny Yang

 

publicado originalmente na revista Corsário

www.corsario.art.br

 

 

 

 

Dizem que R. sempre queria fazer o que se sucedeu: cometer suicídio. Mas, eu penso, do que adianta tantas especulações? Ele morreu, e ponto.

 

Sim, eu era bastante amigo dele, mas numa época quando tínhamos apenas dezessete anos. Ele, R., era um pouco mais velho que eu. Nós íamos sempre num bar, fumados, e ficávamos trocando um monte de idéias metafísicas acerca do nada. Ele, dizia que não via graça na vida. Eu, contra-argumentava sempre, usando - muitas dessas vezes - citações de filósofos e poetas.

 

E a derradeira vez. Encontrei R. - isso muitos anos depois - numa dessas ruas, ele estava vagando descalço, e não deu para que eu parasse o carro, pois meu filho estranharia eu conhecer um mendigo de rua.

 

Nem sua morte sabem ao certo como foi. Uns, dizem que foi remédios - um monte de comprimidos que ele tomara. Outros, dizem que cortara o próprio pulso. Outros, que se enforcara. Como já disse antes, não me importa como ele morreu. Morreu, e ponto.

 

*

 

Meu filho tinha treze anos quando fez pela primeira vez o jogo do copo. Eles, meu filho e seus amigos, chamaram o espírito de R. para brincar e responder perguntas.

 

Segundo meu filho, o copo se espatifou nas mãos de todos. Claro, muitas vezes é a própria pressão dos dedos dos adolescentes que quebra o copo - mas, no caso, meu filho jurou que não.

 

"Então foi o R., mesmo", pensei comigo mesmo. Comecei, nessa noite, a lembrar de uma das milhões de divagações que fazíamos, fumados, naquele bar em que frequentávamos: ele dizia que a morte era apenas um instante, um instante que dividia a vida do além. Entre outras coisas, dizia que, depois que morrêssemos, o mundo ia continuar sendo mundo, a Terra continuaria girando em torno do Sol, e as pessoas continuariam comprando o pãozinho de manhã na padaria. E que não levávamos nada dessa vida, apenas deixávamos. Deixávamos coisas, idéias, pensamentos, gestos.

 

Na manhã seguinte, meu filho queria respostas, ele continuava assustado com a brincadeira do copo. Eu disse a ele: "Não falei para não brincar com essas coisas?".

 

Mas ele continuava querendo respostas.

 

"Se foi o R., meu amigo, ou não, o que importa?"
"Foi um espírito, pai...", disse ele.
"Pode ter sido", respondi. "Provavelmente foi, mesmo. Mas, se não foi, no mínimo ele deixou alguma coisa em nós, para que vocês acabassem com o copo daquele jeito, não?"
"Como assim?", perguntou meu filho.

"Deixa pra lá, filho. Deixa pra lá. Ele morreu, e ponto"

 

Meu filho perguntou:
"Quer dizer que ele está vivo, mesmo não sendo um espírito?"
"Sim, filho. Mas deixa pra lá. A vida continua. Vá comprar um pão para mim na padaria. Ele morreu, e ponto final".

 


 

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