O pão nosso de cada dia
de Denny Yang
publicado originalmente na revista Corsário
Dizem que R. sempre queria fazer o que se sucedeu: cometer suicídio. Mas, eu penso, do que adianta tantas especulações? Ele morreu, e ponto.
Sim, eu era bastante amigo dele, mas numa época quando tínhamos apenas dezessete anos. Ele, R., era um pouco mais velho que eu. Nós íamos sempre num bar, fumados, e ficávamos trocando um monte de idéias metafísicas acerca do nada. Ele, dizia que não via graça na vida. Eu, contra-argumentava sempre, usando - muitas dessas vezes - citações de filósofos e poetas.
E a derradeira vez. Encontrei R. - isso muitos anos depois - numa dessas ruas, ele estava vagando descalço, e não deu para que eu parasse o carro, pois meu filho estranharia eu conhecer um mendigo de rua.
Nem sua morte sabem ao certo como foi. Uns, dizem que foi remédios - um monte de comprimidos que ele tomara. Outros, dizem que cortara o próprio pulso. Outros, que se enforcara. Como já disse antes, não me importa como ele morreu. Morreu, e ponto.
*
Meu filho tinha treze anos quando fez pela primeira vez o jogo do copo. Eles, meu filho e seus amigos, chamaram o espírito de R. para brincar e responder perguntas.
Segundo meu filho, o copo se espatifou nas mãos de todos. Claro, muitas vezes é a própria pressão dos dedos dos adolescentes que quebra o copo - mas, no caso, meu filho jurou que não.
"Então foi o R., mesmo", pensei comigo mesmo. Comecei, nessa noite, a lembrar de uma das milhões de divagações que fazíamos, fumados, naquele bar em que frequentávamos: ele dizia que a morte era apenas um instante, um instante que dividia a vida do além. Entre outras coisas, dizia que, depois que morrêssemos, o mundo ia continuar sendo mundo, a Terra continuaria girando em torno do Sol, e as pessoas continuariam comprando o pãozinho de manhã na padaria. E que não levávamos nada dessa vida, apenas deixávamos. Deixávamos coisas, idéias, pensamentos, gestos.
Na manhã seguinte, meu filho queria respostas, ele continuava assustado com a brincadeira do copo. Eu disse a ele: "Não falei para não brincar com essas coisas?".
Mas ele continuava querendo respostas.
"Se foi o R., meu amigo, ou não, o que importa?""Foi um espírito, pai...", disse ele."Pode ter sido", respondi. "Provavelmente foi, mesmo. Mas, se não foi, no mínimo ele deixou alguma coisa em nós, para que vocês acabassem com o copo daquele jeito, não?""Como assim?", perguntou meu filho."Deixa pra lá, filho. Deixa pra lá. Ele morreu, e ponto"
Meu filho perguntou:"Quer dizer que ele está vivo, mesmo não sendo um espírito?""Sim, filho. Mas deixa pra lá. A vida continua. Vá comprar um pão para mim na padaria. Ele morreu, e ponto final".


