CENA 1:
CENA 2:
Uma psicanalista e terapeuta ocupacional lê "História Social da Loucura", de Michel Foucault, e pensa, deitada em seu próprio divã de seu próprio consultório, que a loucura como conceito é apenas um conceito, não havendo dicotomia entre as palavras loucura e realidade. Depois de dois segundos, pensa: "me ocorreu que a loucura é apenas um conceito, não tendo dicotomia entre loucura e realidade. Mas apenas me ocorreu".
CENA 3:
Um paciente diagnosticado com esquizofrenia encontra-se com um famoso filósofo todas as semanas, duas vezes por semana. Antes de começar a consulta, ele tira do bolso da calça um chiclete todo sujo - sempre faz isso - e dá para o famoso filósofo; que recusa o chiclete; que começam a sessão; que o rapaz com o diagnóstico apenas diz toda hora que queria mesmo é não ficar de lenga-lenga e arranjar umas garotas para ficar.
CENA 4:
No aeroporto, é véspera de Natal. Um homem esbarra em sua filha, na fila do check-in. "Preste atenção", diz o pai. "Vai cuidar de sua vida", diz o homem que esbarrou. "Você está louco?", pergunta o pai da menina para o homem.
ANÁLISE:
Em todas as cenas aqui preferidas, o tema principal é a loucura. No primeiro excerto, o clássico filme com Jack Nicholson mostra um cinema que não tem praticamente ninguém, e o autor da cena usa a palavra masturbação sociológica. Estaria ele num cinema pornô? Estaria ele no Brasil, onde foi cunhada essa frase? Estaria ele apenas no imaginário coletivo, já que não em nenhuma desses dois locais? Certamente que sim, idnependentemente da premissa estar certa ou errada. Aliando essa cena com a cena 4, vemos que o mesmo homem que sai do cinema esbarra na filha do outro cara, que está fazendo check-in. Ele faz isso propositadamente, para ser chamado de louco e tentar, ao mesmo tempo em que sublima essa idéia de loucura, entender que o conceito de loucura é variado, e que pode apenas ser um rótulo.
Esse famoso filósofo que está no imaginário coletivo vendo o filme "Um Estranho no Ninho" faz análise com uma terapeuta ocupacional (T.O.) e três vezes pro semana vê um garoto esquizofrênico, ao menos com esse diagnóstico. Sua terapeuta ocupacional (T.O.) não aguenta mais ouvir ele falar do garoto do chiclete, que vem a ser o garoto esquizofrênico, e ouvir o famoso filósofo dizer que o garoto rejeita totalmente o rótulo de louco ou mesmo de esquizofrênico. De modo que a terapeuta ocupacional começa a ler alguns títulos indicados por um historiador amigo dela, pai de uma filha, que está viajando para a França conhecer Paris, que por sinal esbarra - sem querer - em seu paciente, o famoso filósofo. O historiador indica, além de Michel Foucault, um ex-aluno dele que fez uma longa tese de mestrado a respeito do movimento antipsiquiátrico surgido nos anos 60-70. E diz que, por alguma terrível fatalidade, esse ex-aluno - que, reparem, sempre estava mascando chicletes - havia sido internado, por terrível ironia da vida.
De modo que a terapeuta ocupacional não chega a acreditar nem a desacreditar - com toda sua experiência - a respeito do que lê sozinha em seu consultório o "História Social da Loucura". Mas é importante reparar que ela está sozinha, e, ainda por cima, deitada em seu próprio divã. O que nos faz inferir que - ela própria - tem dúvidas quanto sua própria sanidade mental, e que provavelmente fez psicologia porque queria tratar de suas próprias neuroses; mais, que queria nunca, jamais, ser chamada de louca, o que é chamada por terrível ironia da vida, ainda mais por pessoas queridas a sua volta.
Por isso que ela aceitou ter um filósofo e psicanalista famoso como seu paciente, porque no fundo estava muito preocupada em relação a sua imagem, ou seja, o que os outros acham dela.
CONCLUSÂO:
O garoto, ex-aluno do historiador, e mestre no tema loucura, foi diagnosticado como esquizofrênico porque sua tese era subversiva; à indústria farmacêutica; aos empregos de psiquiatras e psicanalistas; a cultura popular e ignorante; a indústria hollywoodiana (de onde saiu o filme "Um Estranho no Ninho".
A terapeuta ocupacional tenta, na verdade, melhorar sua imagem dizendo para suas pessoas queridas mais próximas que tem como paciente o grande e famoso filósofo (...).
O filósofo-psicanalista busca de todo modo fazer com que não tenha crise de consciência ao dormir - pois senão não seria filósofo - e tenta "normalizar ao máximo o garoto mestre no tema loucura, não aceitando o chiclete que este lhe oferece sempre. É, na verdade, a única mania estranha que o garoto possui, e que o filósofo não revela a ninguém, para se proteger e não ser subversivo como o garoto.
A filha só quer, na verdade, experimentar o famoso crepe francês, e ir na Haaggen Daaz.
CONCLUSÃO 2:



