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Denny Yang

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   “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, 
                   e “a crise dos ismos”

por Denny Yang

 

publicado na Storm Magazine

www.storm-magazine.com

 



   “... dou-lhe este relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste todo seu fôlego tentando conquistá-lo...”
    (trecho de “O Som e a Fúria”, de William Faulkner)

 

 

 

 

 

   Neste romance de William Faulkner, finalizado em 1928, uma família tradicional, os Compsom, é vista sob quatro óticas diferentes, cada qual formando uma seção do livro: na primeira, a visão de Benjamim, um deficiente mental; na segunda seção, a visão de Quentin, um dos irmãos que se suicida; na terceira parte, a visão de Jason, outro dos irmãos, caracterizado por uma personalidade violenta e destrutiva; e, finalmente, na última, a visão de um narrador em terceira pessoa.
   Os temas centrais são a deficiência mental (de Benjamim, a gravidez de Caddy, o desejo incestuoso (ou mais provavelmente o medo de incesto) de seu irmão Quentin para com Caddy, o suicídio de Quentin, a fuga da filha de Caddy (também chamada de Quentin) da casa dos Compsom com o dinheiro que estava em posse de seu tio Jason, a personalidade destrutiva de Jason. 
    A primeira seção é narrada à 7 de abril de 1928; a segunda, em 1910; a terceira, à 6 de abril de 1928; e a quarta à 8 de abril de 1928.
     Vale iniciar este trabalho considerando que o tempo embaralhado não é apenas uma característica estrutural do romance, mas em várias partes do livro vemos este tempo sem uma linearidade – principalmente na primeira narrativa, a de Benjamim – ou vemos também referências a esse tema, como no relógio que Quentin quebra propositadamente, assim como nas falas do patriarca da família Compsom acerca de relógios (este insiste que o relógio não passa de uma mentira).
   Excluindo-se a última seção, pode-se dizer que o texto é extremamente subjetivo, no sentido epistemológico da palavra: Benjamim, já de início, confunde a temporalidade dos eventos, e é o narrador em primeira pessoa desta primeira seção, por mais que seja mudo e portador de uma deficiência mental grave, que o faz chorar e berrar e babar constantemente, quase o tempo todo; na segunda seção, Quentin tem arroubos de pensamentos e lembranças, em meio a sua narrativa também em primeira pessoa (arroubos estes em que Faulkner usa muito técnicas específicas de narrativa, como a não utilização de vírgulas, ou a mescla entre palavras minúsculas com maiúsculas, ou o itálico); na terceira seção, Jason, o irmão destrutivo, também tem seus momentos de divagações, porém menos que os dois anteriores – porém também em primeira pessoa.
   O fato de que o texto é sobretudo narrado em primeira pessoa – as três primeiras seções – já é, de certa forma, um modo de expressão que enaltece o sujeito, seus sentimentos, seus pensamentos, em detrimento de uma visão empírica de conhecimento; na subjetividade, o que importa é sobretudo a visão e a consciência do sujeito, o interno, ao invés do externo (a apreensão do objeto exterior ao sujeito) ou mesmo à dialética. Faulkner, neste romance e nestas três primeiras seções, prezando agudamente os pensamentos e arroubos (com a impressão de que o personagem está narrando tudo o que lhe vêm à cabeça) acentua ao máximo essa maneira de ver subjetiva.
    Não obstante, vale a pena analisar o fato de que a última seção é narrada em terceira pessoa. Quando se utiliza a terceira pessoa, o narrador é onisciente e invisível, sem personalidade e sem ser o próprio autor. O que equivale a dizer que é muito mais um dado da realidade (objetivo) que uma visão singular e particular de um personagem (subjetivo).
    Dessa combinação entre três seções confusas e complicadas em primeira pessoa, e a última que fecha o romance em terceira pessoa, poderíamos então afirmar que existe uma visão dialética do autor, onde o sujeito e o objeto são pólos que se relacionam entre si?
   Antes de tentar responder a esta pergunta, analisemos cada parte por vez: começando pelas três primeiras seções, onde está mais presente a questão da subjetividade.
   O personagem doente Benjamim não possui a mesma noção de tempo linear que Quentin ou Jason possuem; ou melhor, esta noção vai num decrescente, assim Benjamim é o que tem menos noção, seguido de Quentin, seguido de Jason (e seguido de um narrador onisciente e cônscio do tempo linear). O “tempo de consciência” desses três personagens remete ao conceito de duração proposto por Bergson, onde o tempo (passado, presente e futuro) praticamente se desfaz, e o que existe é a realidade da consciência. Lembrando que, para este filósofo, a História não tem transcedência, e vai numa perspectiva vitalícia e historista -  o que tem muito que ver com a temática da “crise dos ismos”; na crise atual da teoria da História, volta-se ao historismo, onde a linguagem está no centro, deixando de lado a questão da transcedência.
    Bergson, todavia, não é lembrado aqui apenas por seu conceito de duração, mas também pelo que chamou de “fluxo do consciente”:essa técnica de narrativa onde se jorra, se vomita, tudo o que está acontecendo na cabeça em forma de linguagem, que é um pouco o que Benjamim, Quentin e Jason fazem em suas narrativas, nessa ordem, e o que caracteriza muitos autores como Joyce, Woolf e Proust, entre outros escritores modernos. Essa técnica de narrativa, o fluxo do consciente, origina-se na fenomenologia, onde o espaço-tempo é apreendido na consciência do sujeito, e então este sujeito “despeja” o que está em sua consciência – o escritor, no caso, escreve o que lhe vem usando um personagem (como no momento em que o personagem Marcel, no “Em Busca do Tempo Perdido”, pega a madeleine e descreve então todos os eventos que lhe ocorreram, num momento apreendido).
     Há que se dizer que a leitura do livro “O Som e a Fúria”, até o final da terceira seção, não se dá uma coerência nem à trama nem à história geral da família Compsom. Como se a subjetividade, por si só, não levasse a uma compreensão mais ampla sobre os temas colocados (como a gravidez e conseqüente expulsão de Caddy da família, o suicídio de Quentin, a deficiência mental e a castração de Benjamim, a resignação de dona Caroline, a matriarca, e, sobretudo, a personalidade destrutiva de Jason que encerra as três primeiras partes). Ou, no máximo, se dá uma compreensão da realidade, mas de uma realidade que é desastrosa, frustrante e decepcionante, sem nenhuma perspectiva ou expectativa de um futuro. Pois até este ponto do romance, vemos apenas tragédias acontecendo na família Compsom, aparentemente sem nenhuma possibilidade de redenção, seja ela divina ou mesmo moral.
    Esse círculo só se fecha com o último quarteto, que é o narrador em terceira pessoa: daí sim temos uma compreensão exata da história da família Compsom, seus relacionamentos, cada personalidade, enfim, uma coesão e uma coerência, tanto no sentido da história pessoal de cada personagem, como no sentido moral.
    O que faz com que passemos a analisar esta parte do livro, sua quarta seção. Nela, os personagens principais são os empregados da família Compsom, uma família de negros (vale lembrar que estamos em mil novecentos e pouquinhos, no Mississipi, onde a questão racista ainda se dá presente, inclusive se dá presente no narrador da quarta seção. Jason, por exemplo, é claramente racista, o que já faz suscitar uma certa confusão do tipo Jason-racista = Faulkner-racista, o que é uma lógica absolutamente não necessária. Porém, e quanto ao narrador em terceira pessoa ser racista?), tendo Dilsey, a mãe, como mulher forte, carinhosa e justa.
    Neste dia 8 de abril de 1928, Quentin, sobrinha de Jason e filha de Caddy, rouba de volta o dinheiro que esse lhe furtou, e foge de casa. Jason vai atrás dela malogradamente. Ou seja, em meio a uma tempestade de subjetividade sem possibilidade de alguma lei, regra ou ordem, neste último quarteto vemos enfim uma saída para esta falta de transcedência moral, por menos religiosa ou divina que ela seja – como se houvesse uma lei da natureza que estivesse castigando Jason por tudo o que ele foi destrutivo em relação às pessoas e sua família.
   Há uma cena, em meio a isso, onde a família de Dilsey, juntamente com Benjamim, vão a uma igreja de negros, numa descrição muito marcante no livro a respeito do reverendo que promove a missa. A família de Dilsey, assim como ela própria, respeita bastante os ensinamentos do pastor, de incisiva religiosidade e citando muito Deus e Jesus Cristo, o que poderia até simbolizar uma tentativa de transcedência sobre o desfecho da história dos Compsom – seria acaso que, nas três seções primeiras, vemos que o patriarca dos Compsom era pastor, e que sua família se degradou moralmente e se destruiu com o passar do tempo, sendo Jason, por exemplo, totalmente cético em relação a Deus? 
    É como se na subjetividade pura das três primeiras seções não houvesse mesmo transcedência, representado até pela falta de Deus e pela falta de compreensão do romance até a quarta parte. Mas o romance são quatro partes, quatro seções que juntas formam o todo. Sem as três primeiras partes, a última seria incompreensível também.
   E a última parte, em terceira pessoa, por mais factual e objetiva que se pretenda – em mostrar “os fatos assim como se sucederam” – não consegue ter sua força isoladamente. Mas junto com as seções anteriores, e relacionando-se mutuamente, dialeticamente – ainda mais porque falta-lhe ao livro uma cronologia lógica de eventos, de modo que o leitor tem que montar e ir fazendo constantemente o quebra-cabeça - vemos então um William Faulkner tentando a junção de dois pólos, o subjetivo e o objetivo, formando então um livro de uma história completa, de uma família conturbada, de personagens apaixonantes e outros odiáveis, de temas polêmicos e, por que não, um livro com uma moral reestabelecida ( com uma possibilidade de transcedência)?

 

 

 

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