Ensaio: Salinger, vida e obra
por Denny Yang
Jerome Salinger, escritor, Nova Iorquino de uma família mais ou menos abastada de Manhattan, ao que me lembro descendente de irlandeses. Muitas histórias contam a seu respeito - ou mito - principalmente por ter se isolado, depois do sucesso da publicação de "O apanhador no campo de centeio", em torno dos 30 anos, indo para uma cidadezinha no interior do Estados Unidos, com poucos habitantes, habitando uma casa escondida.
Escreveu contos para a revista New Yorker, no início de sua carreira, e desde cedo, antes da publicação de seu primeiro romance - que dizia já estar sendo formulado mentalmente quando estava na Europa, lutando na Segunda Guerra Mundial - achava que seria o sucessor de Hemingway, na tradição dos classicos literários americanos. Na Guerra, participou de famosa batalha, onde, segundo dizem, perdeu todos os seus colegas de combate.
Só no seu regresso para os Estados Unidos que publicou "O apanhador no campo de centeio", cujo título é baseado numa canção-cantiga, de alguém que está no campo e "apanha" crianças caindo do campo de centeio.Muitas teorias se fundaram a esse respeito, como se o próprio Salinger, por exemplo, quisesse ser esse "apanhador" ou "salvador" de crianças com seu livro, um livro que mostra um adolescente excepcionalmente inteligente e ao mesmo tempo que rebelde, que num dia de surto, perambula pelas ruas de Manhattan.
Ficou célebre o caso em que esse livro foi encontrado junto com o assassino de John Lennon, que o segurava em suas mãos - ou foi encontrado esse livro em sua casa, algo do gênero.
Sua segunda obra, Franny and Zooey, já esboça o começo de seu envolvimento com a família Glass, e a sua saga conseguinte. Comeca já a aparecer muitos toques de orientalismo, coisa que, segundo os biógrafos - todos não-autorizados - ele pratica com frequência, entre outras, zen-budismo, meditação etc., o que para os anos 60 era algo de extrema vanguarda, numa época hippie - ou no comeco dela -, de revolução sexual, de feminismo e de busca de novidades nos Estados Unidos.Dois irmãos são retratados com detalhes, um, Zooey, o irmão mais novo da família Glass, um jovem igualmente inteligente como Holden Caufield, o personagem de "O apanhador", que é ator teatral, com a irmã Franny, que aparentemente teve um surto ou um colapso nervoso, logo no começo do livro, e o livro inteiro fica as voltas com um livoo meio místico que ela estava lendo e carregando consigo, em sua bolsa.
A senhora Glass, mãe dos garotos, também é impecável no livro, uma família literalmente de excêntricos, e é irlandesa, talvez igualmente como o autor de Franny and Zooey. Apresenta, também, os ourtos personagens da família Glass, como Seymour, o irmao mais velho, e Buddy, o irmão gemeo do meio.
Seymour, por sinal, será mais bem retratado por Salinger no livro "Seymour, an Introduction", e o seu tema principal ligado a esse intelectual ( o personagem) que dá muito valor aos clássicos e ao orientalismo é justamente o suicídio.Este ato será bem retratado no único livro de contos de Salinger publicado, chamado Nove Histórias, no conto "Um dia perfeito para os banana-fish", um livro cujo conto mais emocionante, na minha opinião, é "Para Esmé, com amor e sordidez " - conto cujo tema é um jovem rapaz que encontra uma menina num café, em meio a Guerra, e voltando para casa, anos depois, escreve uma carta, cujo conto pode até ser interpretado como sendo a própria carta.
Ainda, no final dos anos 90, no site da Amazon dizia que estava para "to be released" um novo livro de Salinger, publicado há muito numa revista americana, uma novela curta chamada "Hapsworth, 1924", que nunca foi publicada. E, dos publicados, ainda tem "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira", editado depois dos anos 2000, apenas, no Brasil, pela Companhia das Letras.
Mas se atendo nao ao literário, e sim ao mito que foi criado em torno do escritor... Talvez foi Ian Hamilton quem melhor descobriu algumas coisas, ou definiu a lenda de Salinger, em seu livro não-autorizado (Salinger ganhou na Corte americana a não-publicação do livro), mas que nos anos 90 a Folha, na Ilustrada, publicava alguns excertos do livro, se chamava "In search for Salinger", uma alusão talvez a "In search of lost time".A banda de Lisa Loeb se chamava Nine Stories justamente como homenagem ao livro dele - ela que havia estudado literatura na Brown University - e que "Franny and Zooey" é citado no filme Annie Hall, quando o personagem interpretado por Woody Allen vai separar de Annie Hall.
Diz-se ainda, entre outras, que tinha um cofre do tamanho de uma sala, com seus manuscritos, que escrevia sempre, mas não publicava, que anualmente uma legião de fãs procuravam-no, sem sucesso, ou quando descobriam onde era sua casa, deixavam flores lá, ou descrevia as histórias de como Salinger evitava qualquer entrevista, e chegava a atirar pedras em jornalistas, do alto de sua casa... mas a biografia mais fiel talvez tenha sido feita por Joyce Maynard, ex-namorada de Salinger e escritora que, no final de sua adolescência, publicou um artigo no New York Times, chamando a atenção do escritor.
Confirma, no livro que publicou e que no Brasil se chama "Abandonada no campo de centeio", as histórias de meditacao, zen-budismo, macrobiótica, que escrevia todos os dias, da legião de fãs etc.... tudo, porém, não deixa de responder a pergunta mais intrigante de sua "persona": porque desapareceu do mapa?Porque nunca deixou ser fotografado, deu entrevistas, e sumiu para uma cidade no meio do nada? E porque, afinal de contas, mesmo evitando a fama e o suceso, ele se tornou ainda mais famoso e bem sucedido?
Tenho apenas teorias, hipóteses... uma é que foi o trauma da Segunda Guerra... outro, o sucesso muito rápido, com apenas 30 e poucos anos... outra, uma crítica da fama e da cultura de celebridade, usando o seu silêncio... outra, o desprendimento quanto as questões materiais, já que virara quase um semi-mestre-zen... nao importa. Continua fascinando muita gente, os seus livros, e outra hipótese, para falar a verdade a que eu mais defendo e acredito, é justamente o seu amor pela literatura e sua fidelidade a ela... acreditava Salinger que um livro deve ser lido separadamente da biografia do autor, ninguém deveria associar a obra com a vida, e assim ele, o leitor, conseguiria apreciar um livro quanto a sua pureza, simplesmente, literariamente, somente. Talvez fosse isso que esse escritor propunha. Ou, apenas é uma itnerpretacao baseada na aura da figura "pura" que ele criou como sua imagem. Uma imagem que é, no mínimo, intrigante e misteriosa, e que não deixou de valer uma mençãoa um extinto blog que tive, cujo nome era justamente uma homenagem a seu desprendimento e amor pela literatura, "A casa da colina".
