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MECANISMO E ESTRUTURA LITERÁRIA NA OBRA-PRIMA DE CERVANTES

por Denny Yang

(publicado na revista STORM MAGAZINE)

www.storm-magazine.com

 

 




Eram sessões, basicamente, que duravam e duram de 1 a 5 minutos, e que advém da minha experiência que tive quando de minha adolescência, e que perdura até os dias de hoje, depois dessa experiência apenas sessões mentais e em diferentes graus de sorvimento, quando, em alguns dias na biblioteca da escola de elite paulistana em que eu estudava, aos 13 anos, li o livro Dom Quixote de la Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes.
Foi o primeiro de literatura clássica que havia lido na minha vida, e tenho uma convivência com o livro um tanto quanto tranquila e pacífica. O livro nunca me perturbou, e nunca me fez pensar mais do que sessões de 5 minutos.

Na versão em que li, e se me não me engano, assim, Dom Quixote – ou seria Miguel de Cervantes, ou seria o velho bibliotecário que dentro da biblioteca, ao menos na versão juvenil em que li o livro, e, afinal de contas, ele seria o alter-ego do autor? – está lendo livros de cavalaria na biblioteca, quando começa todo seu sonho de aventuras.

É célebre a passagem dos Moinhos de Vento, do fiel escudeiro Sancho Panca, uma história de amizade e fidelidade, de amores ideais, mas o que eu queria analisar aqui, justamente, é o mecanismo literário que fez funcionar o romance que, digamos, fundou e criou fronteiras para essa vertente literária, chamada "romance moderno", tal como a concebemos hoje.

E a loucura? Não deixa de ser o maior tema e assunto dentro do livro, talvez o livro que inaugura a era Moderna, e ultimamente sempre considerado em círculos intelectuais como o mais importante romance da História, e creio eu, ainda hoje muito atual e corajoso.

O que significa um leitor devorador de livros de cavalaria, num livro, e personagem de um livro, sair em busca de uma aventura cavalaresca e medieval, sendo que essa aventura é considerada loucura? Certamente, uma atitude crítica de Cervantes â Idade Medieval, onde seu personagem não encontra nada além de ilusões e transfigurações e representações daquilo que está “realmente” – se é que poderiamos usar essa palavra – vivenciando...

Primeiramente, considero também uma crítica a era medieval, numa Espanha que vive sua maior época e supremacia mundial, que é justamente o século XVI, como bem define o historiador Paul Kennedy.

Todavia, mais do que uma crítica social e de época, considero o livro uma compreensão a respeito do tema loucura – de longe consideraria como origem e formação desse conceito, pois certamente ele existia, este, digamos, como arquétipo, antes do livro.

Por que compreensão? Porque a grande maioria dos críticos dessa obra fundadora vê a questão da loucura tratada pelo autor como apenas uma descrição de como é a “loucura”, “dos perigos de voar muito, de fantasiar muito”, e os que vão mais longe acham que “a insuportabilidade da época de cavalaria, ou do mundo da ficção, gera esse escape que é sair adoidado em torno do objeto referente a..." etc.

São basicamente as recorrentes leituras que se faz do livro em relação a esse tema. Mas, neste ensaio, defendo que a compreensão deste tema está limitada a um leitor que está apenas num primeiro, ou, no máximo, num segundo plano de interpretações.

O que significa um devorador de livros, personagem dentro de um livro, sair em busca de aventuras de cavalarias que não existem mais, depois de ler... livros de cavalaria? Quem, afinal, é este senhor apaixonado por literatura? É o proprio Cervantes? É ele quem está em busca de um mundo de fantasia? Pode ser.


Porém, o alter-ego, e essa é a base deste ensaio, é defender que ele, o velho devorador de livros, nao é Cervantes; e quem mais se identifica com o personagem-leitor e´ justamente... o próprio leitor do livro Dom Quixote de la Mancha.


O objeto e a obra de que trata Cervantes está, na verdade, muito além do que é a loucura, ela está nos limites fundamentais do que é a própria “literatura”, e por isso, é o romance fundador de todos os romances. Ele diz qual é o espaço próprio e os limites da literatura, vai ate’ o mãximo que ele consegue, que é justamente colocar o alter-ego como o próprio leitor, e não autor.

Se formos analisar a obra por si só, tirando a questão do alter-ego sendo o leitor, ou dividindo-a em duas, a do alter-ego e "fronteiras da literatura", e de outra parte, a loucura, ainda assim podemos ver o personagem leitor de livros de cavalaria como nunca ter saído do ambiente da bilbioteca em que estava.

Ele estava apenas fazendo o maior exercício de todo leitor, ou seja, “viajar” enquanto lê, “fantasiar” aventuras usando como personagem principal ele mesmo, personagem-leitor ( o velho do livro). E~E uma metãfora, não significa que o próprio personagem de fato ( se é que essa expressão cabe aqui) saiu da biblioteca em que se encontrava para se aventurar.

E, em esse caso sendo positivo, o autor do livro (Cervantes) estaria apenas retratando o mecanismo da literatura em si, como, digamos, o ponto central e implícito, e o tema loucura como segundo ponto, tema secundãrio e explícito.
E porque a loucura estaria como tema secundário e explícito? Porque o próprio Cervantes, como autor, deveria ter consciência dessa interpretação aparente do possível leitor, que estaria num primeiro plano, e porque a infra-estrutura do gênero que estava criando e fundando era mais importante ou tão quanto os temas universais que se dispôs a tratar.


Mas, como podemos perceber, a imagem que ele nos mostra tem três planos, e a loucura estaria apenas como duas retas cartesianas, não num, digamos, plano 3D, fazendo uma analogia matemática. Há leitores preparados e despreparados; há leitores que subestimam e outros que superestimam; ha’ freudianos e outro kafkianos.

Se atendo primeiramente ao que chamei de “primeiro plano”, na analogia matemática, o plano cartesiano (o velho personagem-leitor saiu de fato, no plano da ficção, da bilbioteca em busca de suas fantasias), a loucura está na forma mais explícita.


No “segundo plano” ( o velho personagem-leitor não saiu de fato da bilbioteca, e’ uma metafora direta ), o tema da loucura fica como consciente, pois sabe que há interpretações desse “primeiro plano”.

Sabe que ha’ leitores que lerão assim a obra, então, ela fica como uma sombra permanente na obra, ou melhor, uma névoa constante.

E apenas então, se desvendarmos este “terceiro plano” ( o velho como personagem alter-ego do próprio leitor, e o leitor real tendo consciência dos dois planos anteriores) ampliaríamos a discussão do tema loucura que o livro Dom Quixote pode nos propor, assim como os outros temas universais referentes na obra.

Se formos pensar, estamos também em busca de quem na verdade é o alter-ego do velho, e tentando em vão analisar Cervantes em vista disso, achando que ele na verdade é seu alter-ego. Falso.

Acabamos, apenas, procurando vento onde nao há, e mesmo um grande historiador como Carlo Ginzburg, em alguma tese, acabou levantando a hipótese de Cervantes e Shakespeare serem a mesma pessoa, por... terem morrido no mesmo dia. Ou melhor, talvez foi o Carlos Fuentes, o escritor, sempre confundo os dois...

Mas, no fundo, o velho leitor de livros não passa de... nós mesmos, leitores da obra-prima que inaugura o romance moderno como o vemos hoje.

 

 

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