A viagem ao oeste
por Denny Yang
publicado no Cronopios
De repente, eles viram um corpo voando para baixo. Tripitaka ficou pasmo olhando o corpo se movimentando em terrivel descrenca. 'Nao se preocupe', disse Cuidado com o Vazio, ' e' apenas voce'... (...). Ele havia atingido sabedoria em transcedencia e, tendo se desprendido de seu corpo terreno, tambem limpou seus sentidos e se tornou mestre de seu destino..."
(trecho de a Viagem ao Oeste)
Ha’ algum tempo se convencionou que a literatura chinesa teria quatro grandes cla’ssicos. Um deles, que mistura muito humor, fa’bula, religiao, e retratos psicolo’gicos do ser humano, chamado, na traducao, como A Viagem ao Oeste, tem muita influencia na cultura chinesa.
Na traducao em ingles do livro, a narrativa e’ feita de modo bastante repetitivo, numa linguagem quase feita para criancas lerem, com palavras muito simples, e com passagens muito parecidas em sue conteu’do descritivo. Mas se atendo apenas a seu conteudo, de extrema riqueza e interessante nos mitos e nos sentidos da cultura chinesa, conta a historia de Hsuan-tsang, um monge do Imperio Tang, que e’ designado no periodo da dinastia Tang a buscar na India os manuscritos de Buda e traze-los de volta a China.
No caminho, ele encontra alguns disc’ipulos – um macaco presuncoso e arrogante, um porco preguicoso e comilao, um homem com caracteristicas muito mundanas e um cavalo branco muito quieto -, sendo que todos estes discipulos estavam pagando, de certa forma, pecados cometidos no passado, e que se ajudassem Hsuan-tsang, seriam perdoados ou mesmo, por merito, seriam santificados.
Em meio a inu’meras batalhas e personagens ( celestiais e mi’ticos em sua maioria), inu’meras calamidades a serem enfrentadas, e numa viagem que na teoria era para durar tres anos – mas dura quase 16 anos -, eles aprendem com os desafios enfrentados, pouco a pouco, no caminho em que estao buscando, da verdade e da iluminacao, e dos manuscritos que o proprio Buda designa-os a buscar, e o livro tambem passa retratando e mostrando como se relacionam as personalidade de seus personagens.
Ate’o primeiro terco, o livro conta a histo’ria do macaco, com o nome religioso de Entenda o Vazio, e desde o seu nascimento de uma pedra ma’gica, pelo Ce’u e a Terra, ate’ virar rei dos macacos.
Num dia, ele comeca a chorar, pois esta’ entediado com a vida cheia de prazeres de seu reino, e sabe que quando morrer, tera’ que passar novamente por um caminho relativamente igual, e quando desabafa aos outros macacos, todos choram.
Vai buscar, com um mestre que e’ imortal, o que na traducao literal e’ O Caminho, o que seria a busca da imortalidade. Enfim, o macaco encontra um mestre, que o ensina… nao obstante, faz, com seus poderes imortais e com sua personalidade arrogante, uma imensa confusao e bagunca no Ceu do Imperador Jade , que depois de finalmente conseguir captura’-lo, manda-o enclausarado na Montanha dos Cinco Elementos.
Esses nomes de figuras, personagens e lugares se confundem as vezes pela sua aparente imaginacao, mas carregam sempre a carga de um papel simb’olico e mitolo’gico na cultura chinesa, ligados sempre a tradicao taoi’sta, e obviamente, a budista.
A caminhada do monge e’ dificil desde o comeco, apesar dos Budhisattvas terem preparado todo o terreno a ele conseguir terminar sua missao, e a historia fica sem deixar de ser, ao mesmo tempo, uma historia de redencao…, se tornando cada vez mais e mais dificil, com desafios e batalhas que seus discipulos vao ajudar ao longo de todo percurso, tudo numa atmosfera de muita magia, com os personagens voadores, e com poderes de transformacoes.
Mas a busca da salvacao e do caminho da verdade nao e’ tao simples assim. Por exemplo, o macaco, no comeco, mesmo depois de ser enclausurado nas Montanhas durante 500 anos, e ser perdoado por Tripitaka, o nome religioso do monge – que tambem e’ o nome dado aos verdadeiros manuscritos budistas – continua presuncoso e arrogante, e so’ pa’ra pois Buda manda dar a Tripitaka um anel para colocar na cabeca do macaco, que quando recitasse algumas palavras, o anel invisivel se fechava ate’ ele nao aguentar de dor e fazer tudo o que Tripitaka mandasse. Apenas ao longo da historia, que se percebe que o macaco – provavelmente o personagem mais carismatico do livro – esta’ evoluindo e aprendendo com a histo’ria toda, ate’ Tripitaka nem precisar mais usar as suas palavras que o castigam com o anel.
Essa e’ uma das passagens mais celebres do livro, a do anel na cabeca de Entenda o Vazio, que todos os chineses conhecem. Ou a passagem do macaco que entra dentro do estomago – com seus poderes magicos – da esposa do Demonio Bufalo. Da luta entre o Macaco com o Bufalo, em que um vira um tigre, o outro se transforma num leao, para posteriormente o outro se transformer num elefante, e por ai’ adiante. Ou da expulsao do macaco da casa de seu mestre imortal. E do elixir imortal de Lao-Tzu, um dos personagens imortais que aparece no livro.
Mas talvez a mais celebre passagem e’ a luta do macaco com o proprio Buda, que numa competicao onde, se o macaco ganhasse, ele teria o que quisesse, Buda o desafia a sair da palma de sua mao; o macaco, ale’m de sair, viaja muitos oceanos com seus poderes ma’gicos, e para nao terem du’vidas de que ganhou o desafio, num momento pa’ra em algumas rochas, escreve algo como “O macaco esteve aqui”, e ainda urina nas rochas. Quando volta para falar com Buda, diz que foi tudo muito fa’cil, que saiu e ate’ viajou muitos oceanos, ao que Buda diz que ele nao sai’ra da palma de sua mao. Indignado, o macaco diz para averiguar as rochas que ele escreveu sua inscricao, ao que Buda mostra em um de seus dedos, escrito bem pequeno a inscricao: “O macaco esteve aqui”…
Em meio a tantas figuras miticas e ni’veis diferentes de elevacao espiritual, a busca pelos manuscritos se faz a volta com uma pergunta: qual a finalidade de tudo aquilo, de toda essa busca, e de toda essa missao, se no final das contas as coisas poderiam ser bem mais faceis de serem resolvidas? Pois, em meio a tantos seres imortais e celestiais, se Buda quisesse, poderia fazer algum Budhisattva seu simplesmente buscar tao logo quisesse os manuscritos.
Mas e’ um livro que mistura e insere, alem de figuras humanas com animais e dragoes e seres celestiais, algum sentido que o leitor justamente, tem que saber tirar, para nao cair no vazio, a exemplo ate’ mesmo do nome religioso do macaco: “Entenda o Vazio”.
Pois, de acordo com esse classico, existem ni’veis de elevacao, ou mesmo de aprendizado, de acordo com cada livre-arbi’trio de cada ser, que pode escolher entre O Caminho, e o pecado. E e’ como se cada um precisasse passer por algumas coisas, para se elevar mais e mais. Numa de umas passagens que achei substancial nesse sentido, o macaco, comecando talvez a aprender com sua jornada, fala para outro discipulo, que acha que tudo poderia ser mais fa’cil:
“Para escapar ao mar de lamentacoes, eu preciso puxar o Mestre pelo caminho da terra. Para escapar ao mar de lamentacoes, nosso Mestre precisa fazer seu Caminho por todos esses estranhos territ’orios. No’s somos apenas meros guardioes de sua vida mortal, mas nao podemos protege-lo de seus deveres, nem podemos ir adiante e obter as escrituras por nos’ mesmos. Cada um a seu nivel, e de acordo com seu ser. Mesmo que pudessemos ir no’s mesmos e vi’ssemos o Buda por no’s mesmos, ele nao poderia nos dar as escrituras. Lembre-se: ‘o que e’ facilmente adquirido, e’ facilmente esquecido’ ”
A autoria do livro e’ creditada a Wu Cheng En, que viveu na dinastia Ming em torno de 1500, e a historia de Tripitaka, tirando a ficcao e mitologia, e’ considerada real.
