Na China
por Denny Yang
publicado no Cronopios
Como brasileiro, e agora taiwanês da República da China (R.O.C. - não confundir com República Popular da China), tenho, claro, como todos aqui têm, medo de criticar ou relativizar assuntos “internos” do país. Mas creio que meu medo seja menor que o medo de ouvir do outro.
A cultura chinesa, na minha opinião, é o maior tesouro que a China tem. Sua milenaridade, riqueza e sabedoria não tem preço, e tem um valor muito maior que qualquer crescimento anual de 10% do PIB, ou qualquer outro valor material. A grande disputa, entre República da China (Taiwan) e República Popular da China (a China Continental) é muito mais em relação a quem é o seu legítimo herdeiro e dono deste tesouro, do que se Taiwan é um país de verdade ou não.
Institucionalmente, Taiwan é um país. Será? Tem um governo. Tem ministros. Tem presidente. Tem votos abertos e diretos. Tem nome (oficialmente, R.O.C). Tem território e povo. Tem língua (o mandarim, oficialmente). Tem próprio RG. O povo taiwanês paga seus tributos ao governo federal, e este usa para sua própria administração. Tem Parlamento, Judiciário e Mídia própria.
Mas... é reconhecido pela ONU, ou demais países? Não, e são muitos poucos países no globo que reconhecem Taiwan institucionalmente como país, e não vale comentar aqui os porquês.
Acontece que o ex-presidente de Taiwan, Chen Shui-bien, hoje envolto em inúmeros escândalos financeiros e de corrupção – está atualmente sendo julgado nos tribunais, em mídia nacional – usou justamente a bandeira da independência para se eleger e reeleger presidente. A maioria do povo taiwanês votou no presidente.
Ora, quando a China começava a esboçar seu crescimento milagroso da economia, optou, em relação a seus “assuntos internos”, a traçar um discurso político em relação a Taiwan onde: “vocês podem tudo, menos querer independência”. Isso era lá para os finais dos anos 90, e se acirrou com a virada do milênio e seu crescimento respectivo. Estrategicamente, claro que era um discurso extremamente político e minucioso da China, pois ao mesmo tempo que indiretamente dizia que fazíamos agora parte dela, do Continente, ao mesmo tempo tirava o reconhecimento, pela força da pressão, da própria instituição República da China como país. Ao mesmo tempo, não dava margens a ser criticado internacionalmente, devido ao teor de seu discurso.
Por que os taiwaneses caíram no discurso, e aceitaram o demagógico discurso do ex-presidente Chen Shui-bien de que, então, “lutemos pela independência”? Por que, se já tinham este status de país, mesmo que não reconhecido pela ONU? Para que fazer uma nova independência? Ser um país próprio, com nome próprio, não é o ápice da independência? Acontece que emocionalmente, claro, os taiwaneses não aceitaram o teor do discurso da China, e provavelmente foi a maior razão que fez com que o ex-presidente ganhasse duas eleições. Mesmo assim, começa uma série de discussões e debates sobre se deveriam criar um país próprio, um novo nome (houve um esboço de colocar o nome Taiwan no passaporte, ao invés de R.O.C), e uma nova tentativa de reconhecimento pela ONU. Auto-engano? Estavam mais para reinventar a roda.
Voltando agora a questão inicial do artigo: a disputa do tesouro da cultura chinesa. Claro, a resposta é que a cultura chinesa é dos... chineses. Mas os taiwaneses também são legítimos herdeiros, mesmo que institucionalmente um país, com governo e presidente? Deixo a pergunta em suspenso, pela dificuldade em eu próprio respondê-la.Os taiwaneses constantemente dizem que “aqui o nosso caso não é igual nem ao da Coréia, nem ao da Alemanha”, situações em que houve cisão com o mesmo nome preservado do país original. Não é mesmo. Cada caso é um caso, como em psicologia e psicanálise. Os taiwaneses deixam em suspenso a questão, por mais que muitos – talvez a maioria – sejam contra a independência.
Eu incluso. Sou contra a independência. A China, também, não dá sinais de que irá tomar a ilha de Formosa a qualquer custo. Talvez por respeito à História e à histórica guerra entre Mao e Chiang Kai-shek (que hoje, muitos taiwaneses odeiam como ditador). O Partido Azul, no fundo, quer muito a reunificação. Mas porque não unifica logo, então? Acho que, por um lado, tenta preservar sua sabedoria chinesa herdada, da paciência, e da... espera.
Em 2008, o Presidente Mah Yin Jo, do Partido Azul, ganhou as eleições, e busca um aproximamento e moderação com o continente.
