HOME | BIOGRAFIA | LIVROS | RESENHAS| DOWNLOADS | ARTIGOS

|iTUNES|NOOK|SONY|KINDLE|CONTATO|arquivo de blog

 

 

 

A carteirinha nao será renovada

por Denny Yang

 

 

 

 

publicado na seção para convidados "Dois dedos de prosa", da Revista VIDA SIMPLES (editora ABRIL)

 

http://vidasimples.abril.com.br/

 

 

 

 

 

A arte pode ser uma ferramenta poderosa de apoio para muitas pessoas. No meu caso, foi, especificamente, a literatura. Ela me ajudou – e continua ajudando – em muito a superar muitas barreiras que fui enfrentando durante a vida, especialmente na passagem da adolescência para a fase adulta.


É nessa idade que comumente se dá o diagnóstico de esquizofrenia, no homem. Usei, desde o começo, a literatura para pensar, metaforizar em ficção meus sentimentos e emoções, me ocupar lendo e escrevendo, e registrando para sempre meus momentos de dificuldade no papel - este fazendo o “papel” de uma fotografia da alma... Sim, como pode perceber, fui diagnosticado com essa doença complexa e difícil. O ano? 1999.


No começo, percebi que uma parte minha, mental, fugia de meu controle, e outra parte se mantinha lúcida e consciente de tudo. Eu entendia, com essa parte extremamente lúcida – na ocasião, ainda chocado com o diagnóstico – as conseqüências que resultariam em mim diante de meu quadro psiquiátrico: era uma tragédia então, uma tragédia que eu jamais esperava que aconteceria (justamente comigo!). Eu tinha certeza então que eu estava ficando louco.


E como é difícil essa fase, acho que só quem viveu essa época e também teve um diagnóstico parecido que sabe. Ser louco perante os outros; ser maluco de carteirinha (sim, pois agora eu era “oficialmente” maluco); ser temido por todos, já que a qualquer hora eu poderia perder as rédeas da situação, gritar, espernear, chorar de soluçar na frente de todos, ficar agressivo sem razões e, até, quem sabe, me matar...

... e então, no segundo ano de tratamento, numa certa noite em que eu estava realmente deprimido, pois achava que jamais me recuperaria, e sempre sentiria aquelas sensações esquisitas e esses pensamentos que eu nem queria ter, e então...

- Por que você não faz aquilo que você mais gosta, que você sempre quis fazer? Escrever? – disse minha mãe, sentada ao lado de mim, eu que estava deitado na minha cama.

E comecei. Comecei a escrever. Botar para fora. Produzir. Se eu tinha problemas para me expressar, agora eu usava a ficção como forma de dizer por outras palavras. Comecei a ler bastante – o quanto eu conseguia. Comecei a pensar em conteúdos mais elaborados. Comecei a me ouvir, ouvir o que eu pensava a respeito das coisas. Escrevi um livro inteiro. Publiquei. Escrevi outro, e depois outro, e depois outro... e, quando me dei conta, depois de alguns anos e eu estava recuperado. Totalmente recuperado.


Claro que muitos outros fatores são essenciais – para não dizer pré-condições – de uma recuperação total, além de uma ocupação rotineira (como foi a criação literária no meu caso): é preciso muito trabalho diário, muito esforço, e muitas vezes, também, coragem de pedir ajuda aos outros - para assim ajudar a si mesmo. Passei por diversos psiquiatras, psicanalistas, que também me ajudaram muito, mas a família e amigos constituíram a base da reconstrução de minha vida. Amo eles, e tento demonstrar isso na mesma medida em que tem que se regar uma planta.


E o questionamento: lembro do dia em que saiu o filme “Uma Mente Brilhante” no cinema. É a história daquele matemático que ganhou o Nobel e tinha esquizofrenia. Um amigo meu, que acabamos perdendo contato devido a meu diagnóstico, me ligou, na época, dizendo que “vi o filme e acabei lembrando de você!”. E com o tempo, parecia que mudava um pouco a percepção sobre o que era ter esquizofrenia. Na idéia da sociedade leiga, esquizofrenia é até sinônimo de loucura. Mas então... como um esquizofrênico ganha um Nobel? E ainda mais de lógica, de Matemática!


E aos poucos, eu próprio fui questionando se eu era louco mesmo ou não. Cheguei na conclusão de que eu não era, por mais desconfiança que eu carregava a respeito de tudo. Eu era um ser humano normal, e como todo ser humano normal, eu merecia respeito dos outros. E, principalmente, respeito de mim para comigo mesmo.


Comecei a parar de me colocar como um ser inferior, defeituoso, e isso foi o início de as pessoas de meus círculos sociais começarem a parar de me ver assim também. Proust, que eu cheguei a ler muito nessa época, diz muito essa palavra: amor-próprio.


Sim, é esse o tal do estigma na esquizofrenia. Um dos estigmas, que tem muito a ver com a falta de informação e conhecimento a respeito. E que acaba estigmatizando o próprio paciente. E que acaba demorando e atrasando sua recuperação.


Hoje, posso dizer que minha carteirinha de maluco foi expirada. Sem data de renovação...


Se eu tenho uma solução para o fim disso, desse sofrimento desnecessário? Não, não tenho. Intuo, porém, que um dos possíveis caminhos é não ter vergonha de seu ser; e, principalmente, do que lhe aconteceu (pois poderia acontecer com qualquer um).


O que creio ser certo, porém, é que cada um tem que encontrar o seu jeito de se inserir no meio onde vive: pois é uma luta individual e pessoal de cada um.


Eu?


Encontrei escrevendo.



 

 

 << voltar para ARTIGOS

 


 

Us | ©2009 DENNYYANG.COM