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Quem vai ceder?

por Denny Yang

 

 

 

 

 

 

publicado no Cronopios

www.cronopios.com.br

 

 

Qual, afinal, ou o que define a noção de povo, de um país, de uma nacionalidade?

Pense o caso de Taiwan. E China. Taiwan, antes de Mao Tse-Tung tomar o poder e fazer a revolução comunista na China continental, já era como uma província da China continental, tendo nativos aborígenes na ilha de Formosa, e ter até sido colonizado por curto prazo por... holandeses.

Foi só depois de Mao Tse-Tung tomar o poder que Chiang Kai Shek veio para Taiwan, reunir forcas para voltar - era seu plano inicial, retornar a China - mas no máximo conseguiu apenas instalar um governo paralelo, que, durante muito tempo, foi reconhecido pela ONU como o governo oficial da China.

Estranho, não? A China continental só veio a ser reconhecida como a única China, em detrimento de Taiwan, muito tempo depois... e os taiwaneses, hoje, e a maior parte deles, se considera... taiwaneses, e não chineses. Claro, uma parte é pro-anexação a China comunista de hoje - a continental - e outra pró-independentista.

Se formos analisar a questão proposta no começo deste artigo, o que define a noção de povo, de uma nacionalidade? O seu território físico? As pessoas nascidas lá, neste território nomeadamente um país? A cultura de um povo, e toda sua herança cultural? Sua História? O sistema político e econômico atual?

Não sei se quem definiu melhor essa noção, se Levi-Strauss ou Bastide. Nem sei se a Palestina, por exemplo, existe porque tem ou não tem direito a território físico. Mas, no caso de Taiwan e China continental, acredito que a questão é também bastante complexa para ser ignorada neste artigo, tendo conseqüências para a identidade de ambos os territórios. Os taiwaneses têm algo como uma crise de identidade, e os chineses continentais, uma identidade perdida - em virtude do regime autoritário-comunista vigente desde os anos 50.

Voltando à Historia dos anos pós 50, quando houve o rompimento entre esses dois territórios. Chiang Kai Shek, hoje, é acusado pelos taiwaneses, ou grande parte deles, de assassinar e prender politicamente muitos aqui em Taiwan, sendo considerado por alguns o "quarto maior genocida da História"... o que qualquer historiador no Ocidente acharia uma acusação um pouco estratosférica demais. Se formos pensar em Mao TSE-Tung, ou mesmo Hitler e Stalin… mas se atendo a Mao... este sim entra na lista dos top 10 sem dúvidas, perseguindo todos contra o regime comunista, e provavelmente até mandando muitos para Taiwan, visando a derrubada do regime republicano que Chiang Kai Shek queria preservar, como sendo da autentica China. Não, Chiang Kai Shek pode não ter sido o maior dos democratas, e é da mesma forma ponto pacífico que não foi: foi um general e professor militar importante na China continental desde os anos 20, antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial.

Nesse período, a China continental se embolava e tentava unificar três ou quatro grandes territórios, controlados por importantes generais cada grande território, dentro da China... Chiang Kai Shek, depois da Segunda Guerra, unificou - já tinha esse projeto desde em que dava aulas militares - esses três ou quatro grandes territórios....  daí para tomar a liderança e, posteriormente, a presidência, foi um passo. Mao surge então para instalar o comunismo no pós-guerra, e toma então a polícia, o exército, e o poder, instaurando com terror o comunismo apreendido e começado desde a revolução de 17, na Rússia.

   Então, Chiang Kai Shek vai a Taiwan, onde era uma ilha chinesa, e conseguiu lá um abrigo, levando consigo muitos políticos e famílias importantes, que fugiam do regime de Mao. Bem, basicamente, essa foi a historia. Ainda depois de Chiang Kai Shek, seu filho também foi presidente do governo chinês paralelo instalado em Taiwan.

O movimento independentista taiwanês começa mais nos anos 90, ou em seu final, quando surge com forca o partido verde, que contrabalanceia o Kuomintang, o partido azul, que atualmente está no poder. O partido verde, desde final dos 90, fica oito anos no poder, e é pró-independentista.

  Pois então... creio que a noção de nacionalidade esta’ presente em todos os fatores que citei acima, não só num nem noutro. Desde a ruptura de Chiang-Mao/ república-comunismo, não se sabe ao certo quem é a genuína China, ou os genuínos chineses... claro, hoje em dia, ganha forca o poderio econômico e militar, falando muitas vezes mais alto perante o mundo, e talvez até, perante a ONU. Mas é certo dizer que, durante muito tempo, Taiwan se considerava a genuína China... até pelo menos os anos 80.

Como dizer, porém, que um sistema comunista-autoritário, e que submete bilhão de sua população a esse controle, é considerado o legítimo? Ora, não foi assim durante as épocas das dinastias chinesas? O imperador não controlava seu povo autoritariamente? E a marcha da História tem que ser assim, e depois do Império, a República, e depois da República, o Comunismo. Quem são os verdadeiros chineses, são os militares-comunistas no poder atual, são os democratas-capitalistas taiwaneses do Kuomintang? São os milhões, ou bilhão de civis que atuam sob a órbita desses poderes? Se Taiwan, por exemplo, fosse tão forte como o Japão - que está muito longe de ser? A História não seria outra, e a tendência não seria reconhecer a China continental como não-única e não-incontestável genuína China? Claro, é uma hipótese que não aconteceu, muito embora sirva de exercício de raciocínio.

Acredito que se o jogo militar-econômico fosse mais equilibrado, daria até então para contestar se um país se faz de ideologia e cultura e movimento histórico, mas nem isso... Taiwan é constantemente abandonado por países norte-americanos, europeus, latinos, capitalistas e democratas. Nem assim, com a conjuntura internacional ideológica a favor da ilha, se dá para equilibrar o jogo de poder...

Quem está certo, e quem é o chinês, analisando a tendência da Historia? É o seguidor de Chiang Kai Shek ou de Mao Tse-Tung?

Ora, seria o mesmo que perguntar quem seria o alemão genuíno, se tivessem dois líderes na época da Segunda Guerra, Hitler ou o outro. Mas só houve Hitler, e os alemães tem que se haver com seu passado, que seu próprio povo construiu, ou muitas vezes, lutou. Assim como os chineses tem que se haver com Mao... mas também, com Chiang Kai Shek, pois houve dois lideres nesse caso, e ambos, chineses convictos de etnia, cultura, nacionalidade e RG. Não é questão de comparar quem dos dois é melhor, ou qual sistema, mas analisar e aceitar que houve uma cisão por conta desses dois líderes representando dois sistemas ideológicos.

Taiwan querer virar uma nova nacionalidade é apenas um direito se muito oprimido como região e incompreendido como povo pertencente a uma região de um conjunto maior, assim como sempre acontecem em movimentos regionalistas independentistas. A única condição "oficialmente falando" da China continental perante Taiwan é que ela é uma ilha rebelde, e não se atreva a declarar independência! Por outro lado, a China continental ignora que Taiwan teve esse passado de Chiang Kai Shek indo instalar um governo paralelo, e ignora que durante tanto tempo foi construída uma genuína – agora sim - democracia, e que se sente oprimida se falam que a democracia agora já era, meus companheiros...! Vocês todos serão agora do partido... vermelho.

    Da mesma forma, quem está errado na História? Se realmente existiu esse rompimento, e teve provisoriamente duas Chinas, a ponto da ONU e dos países-potências de então reconhecer não a China continental, mas Taiwan - a ilha de Formosa - como a verdadeira China (isso, obviamente, em meio a Guerra Fria entre EUA e URSS), uma que queria ser democrática, outra comunista?

    Taiwan, veja bem, não impõe a China continental que seja anexada a ela, ilha... nem se declara mais China, quase... veja bem, os taiwaneses viraram personas non-gratas e expatriados! Ela quer continuar fazendo sua construção lenta e gradual, que foi ensinada de geração para geração, tudo herança da Historia e Cultura... chinesa - a ainda não reformulada pela Revolução Cultural de Mao. Claro, respondendo a pergunta inicial proposta neste artigo, também conta, além de todos aqueles fatores, a “quantidade de gente”. Um bilhão e meio de gente dum lado, vinte milhão de outro, não conta? Mas… porque na época da Guerra Fria não contava esse fator quantidade para os países democráticos e capitalistas? Ora, que paradoxo infindável…

    Não é questão de defender quem é a verdadeira China, num jogo de oito e oitenta, pois, como já disse, acredito que a noção de nacionalidade e povo vem de um conjunto de fatores, e ambos são chineses até prova em contrário, ou afirmação em contrário. Mas o melhor não seria se a "crise de identidade" chinesa fosse “apaziguada” com o não-ignorar da Historia, e um entendimento dos dois lados - das "duas antigas provisórias Chinas"?

   Quem vai ceder? Quem já está cedendo? Quem cede mais, quem cede menos? Como num casal de namorados ou marido e mulher que brigaram muito tempo e discutiram, mas querem ficar juntos... sempre terão os "terceiros" e os "de fora" para observar quem está cedendo ou começando a ceder, e quem está cabeça-dura.

   Esse papel, acredito hoje, está no resto do planeta, sejam países-potências ou não.

 

 

 

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