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Kafka em Tecitura

por Denny Yang

 







Se eu fosse listar meu cânone pessoal, certamente um autor estaria entre os 3 primeiros: Franz Kafka. É dificil falar sobre um autor que tanto já se falou, desde que sua obra consiste numa paranóia, ou que sua obra previu o advento da Segunda guerra mundial.

A metamorfose, no entanto, sua obra mais famosa, que li quando tinha uns 16 anos, tem um quê de absurdo e angústia existencial a ponto de o indivíduo, no decorrer do livro, se transformar em um inseto. O inseto, símbolo do asco, do nojo, do descartável, do vazio... o absurdo, óbvio, pode ser interpretado muito bem como uma mera história que um cara se transforma numa barata. Mas metamorfose é apenas o começo da obra de Kafka, que, fez seus livros todos interligados um com o outro, inter-relacionando eles, sabendo e tendo consciência de um símbolo de um livro que afetaria a leitura de outro livro.

Por isso, sua angústia em não ver todos seus livros publicados, ou seja, disponíveis a quem quer que seja do público geral.

Na minha opinião, ele teceu uma obra não pensando individualmente seus livros, mas em conjunto.

Dito isso, se “A metamorfose” é apenas um símbolo de asco e nojo e expressão de angústia, numa história quase banal, porém muito bem narrada e redigida, “O Processo”, sua segunda obra mais famosa e não menos essencial, já dá sinais de densidade e concisão, numa "trama" labiríntica e sem saída, onde o próprio emaranhado que entramos está nas palavras e redes de palavras que o autor vai construindo, juntando-se sem parar e relacionado-se com o próprio enredo labiríntico. O uso da repetição, nessa obra, mesmo de situações onde o personagem está literalmente "perdido", acho que toca justamente nesse ponto, no da "perda", impotência", além, claro, das questões da Justiça e Burocracia, e do autoritarismo de um Estado que é quase tão autoritário quanto a figura do seu pai.

Sobre essa figura do pai, nem precisamos falar, mas jaá falando, de “Carta ao Pai”, um relato não-muito longo, em forma de carta, com conteúdos semi-biográficos, que os biógrafos classificam como prova cabal que Kafka não se dava bem com seu pai, que ele era extremamente autoritário ou coisa do tipo. Eu, pessoalmente, tenho uma outra explicação: acho que Kafka tinha, na verdade, problemas com suas duas irmãs, ele, que cita a figura do pai, do homem, mas nunca deixa a figura feminina como principal em seus livros... o que demosntra muito a órbita de influência que elas exerciam sobre seu círculo de vida. Kafka dirigiria uma carta tão agressiva, a ponto de tentar publicá-la, seja em revistas literárias da Tchecoeslováquia de então, seja em livro impresso, ele correria mesmo o risco de ver seu pai lendo esse livro, se tao autoritário era? Ele enfrentaria seu pai com o uso da pena e tinta? Adiantaria? Os biógrafos do autor tcheco defendem que sua ida a faculdade de Direito e o trabalho nessa área era uma exigência de seu pai, que não queria que ele fosse escritor.
Ora, se for assim, todo escritor tem pai autoritário, pois nenhum quer que seu filho seja escritor, por falta de... grana. Kafka tinha, claro, uma frustração enorme quanto a não ter alcançado um público considerável, apenas umas citações que seu amigo Max Brod escrevia as vezes nesses suplementos tchecos... frustração por ter publicado em vida, apenas, um ou dois livrinhos, e assim, não ter constituído totalmente sua obra publicada em vida.
 Porém, se hoje em dia temos as revistas digitais na internet, naquela época os suplementos e revistas literárias eram também importantes, e não é nada ignorável que Kafka publicou grande parte de sua obra e novelas nesses impressões, o que certamente lhe dava um alívio de ver em vida a consituição da tecitura que havia criado, que, assim, como Proust, criou um projeto literário de autor, diferente de literatura de gênero.

Nao é por acaso que também “O Castelo”, um enredo praticamente similar a “O Processo”, tem também uma característica cabal em comum: não foi finalizado. Por que não foi finalizado? Uma trama completamente paranóica, em que o personagem se encontra num labirinto metáfora da burocracia sem fim... e o livro não tem fim? Foi proposital, a meu ver, ou "inconscientemente proposital".
Kafka era um tipo de autor que não deixaria um livro sem ponto final por incapacidade, por incompetência, por falta de tempo ou habilidade; deixaria um livro sem ponto final apenas... conscientemente, como até parte da obra escrita, como fazendo parte da metáfora da burocracia sem fim, da injustiça do Judiciário, do autoritarismo que começava a ser interpretado com o surgimento de Freud no começo do milênio.

No final da vida, ainda deixou seus diários, seus aforismos, feito em cama de hospital, para a posteridade, para saberem o conjunto de sua obra, quase que "prevendo" a importância de seu projeto, labiríntico e também incompleto, dedicado com tanta energia pró-ativa ( estudos, talento de escrita, tempo) ou de sofrimento ( frustração, ang´sstia, crises existenciais, sentimento de estranhamento e absurdo).
Se Proust também veio na mesma época de Kafka, morreram jovens, e ambos tinham antenas como dizem que grandes escritores tem, como um mediúnico que sente a sociedade, Proust deixou claro: sua obra “Em Busca do Tempo Perdido” deveria se assemelhar a uma obra física, a uma construção, a, especificamente falando, uma catedral.

 Kafka, unindo todos seus livros individuais em um só, para assim compor sua “ouvre” ( os franceses separam ouvre de ouvrage em literatura), também deixa um livro aparentemente inofensivo, mas que é exemplar em seu titulo e em sua narrativa: “A Construcao”.

Se previu alguma coisa, por exemplo, o advento da Segunda guerra mundial, não sei, mas talvez sim tenha previsto que teríamos que passar por uma fase de construção, como em “A Construcao”, ou, salvo engano de memória, “Na colonia penal”, que tem uma temática semelhante.

Interessante como todos os livros de Kafka tem um tom de tinta preta, de tinta preta das palavras, de tinta negra, contrastando com o branco do fundo das páginas... estou certo?

Daé passando ao tema do estranhamento: é tudo estranho em Kafka, e dizem que, ao ler numa palestra sua novela “O Veredicto”, algumas pessoas desmaiaram, outras vomitaram. A história da figura do pai, da figura autoritarissima do pai acusando o personagem... sempre as voltas com o advento da psicanálise freudiana em suas obras.

 Termina, essa novela, com o suicídio do personagem, suicídio em não aguentar tamanha acusação sem fundamento, sem importância, que no fundo expressa apenas uma imensa culpa advinda de muito tempo do próprio personagem.  Kafka? Talvez apenas uma demosntração de poder de sua pena, que fazia mulheres vomitarem e desmaiarem, ao invés de chorarem e se apaixonarem.

Kafka. Talvez entre meu cânone pessoal, esteja em primeiro ou segundo lugar, depois apenas de Proust ou Salinger ou Raymond Carver ou Sartre ou Dostoievski.

Bergman, muito tempo depois, declarou mais humildemente que uma obra de cinema, de arte, deve ser visto como uma cadeira, igualzinho como uma cadeira: serve para alguma coisa. O que nao nos serviu a Construção de Kafka?

 

 

 

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