Sartre, filosofia e ficção
por Denny Yang
"Não é o que o passado fez de mim, mas o que eu farei de meu passado", J. P. Sartre
Sobre o filósofo francês, li muito, mas sobretudo sua ficção. "Os Caminhos da Liberdade", uma trilogia ambientada na resistência francesa, "O Muro", livro de contos, e "A Náusea", romance que trata de Antoine de Roquentin e que mostra a essência da filosofia sartriana.
Na aula de Teoria da História, aprendi algumas coisas a seu respeito e sua filosofia. O professor argumentava que Sartre definia o ser humano como se "nascesse como um repolho". Somos repolhos, ou melhor, nascemos repolhos e podemos ou não nos tornarmos gente.
Durante muito tempo Sartre me fascinou. A história toda de ser intelectual engajado, a questão de superação da crise individual por meio do engajamento social... isso tudo fazia muito sentido para mim.
Vi recentemente uma entrevista com ele, num canal francês, em que ele dizia que o intelecual - e ele próprio -, consciente de sua popularidade quase pop star, devia saber utilizar os meios de comunicação de massa para alcançar e expressar seus pensamentos; a mídia. Mas não vi a entrevista inteira, pois estava me dando dor de cabeça aqueles monte de intelectuais fazendo perguntas para ele, e ele respondendo numa linguagem que parecia que estava escrevendo seu tratado "O Ser e o Nada".
De modo que, hoje em dia, o admiro muito mais pelos seus escritos ficcionais do que seus tratados filosóficos ou sua persona. Não porque ele - diz a língua - voltou da Rússia apoiando de certa forma - ou simpatizando com - Stálin. Tampouco porque eu não acredito em conceitos como intelectual engajado. Ou porque a ficção diz muito mais que um livro de filosofia - o que nem todos concordam. Mas me atrai mais a ficção, acho que ele descreve e escreve bem, e é o lugar onde mais mostra uma completude, em seus escritos ficcionais - tirando sua prórpia vida inteira, claro... - o fato de andar pelos cafés no quartier latin, de ter ficado com Simone de Beauvoir em relacionamentos liberais - onde cada qual tinha sua própria cota de amantes e viviam em apartamentos separados, ou mesmo o olhar, o olhar que conseguia - capturado por Cartier-Bresson - olhar um olho para um canto e outro para outro...


