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 Fenomenologia e lei da inversao em Proust

por Denny Yang

 







Admito: nao li o livro inteiro que vou comentar a respeito. Mas como li umas 3000 pááginas deste livro, creio que posso dizer alguma coisa.
Parei no livro "Sodoma e Gomorra" não por tédio, emborrecimento, ou preguiça, como muitos alegam parar no meio. Parei por absoluta falta de tempo, a época, pois tinha que me dedicar a outras atividades. Quero muito, todavia, voltar a ler o livro - recomeçando do zero, claro.
Para mim, a grande questão que se apresenta no livro Em busca do tempo perdido  é muito mais que a madeleine, ou a questão bergsoniana de captar o espaço-tempo na mente, naquela idéia fenomenológica. Apesar de que a fenomenologia é uma filosofia que acompanha em muito a idéia que eu queria analisar do livro de Proust, que eu chamaria de uma certa "lei do retorno".
Acho que no segundo, ou terceiro volume de um dos maiores e melhores romances modernos, Proust, ou melhor, seu narrador - que não deixa de ser seu alter-ego óbvio, e, por mais que eu nunca tenha encontrado o nome do narrador no livro, li num livro de Harold Bloom que ele se chama também Marcel, e é citado ao menos três ou quatro vezes na obra - diz claramente a idéia de que as "relações se invertem". Literalmente se invertem, e explica isso explicitamente.
No caso, ele, o narrador, estava saindo com alguma garota - acho que era a Alphonsine - e já tinha tido outras amigas, e descrito outros encontros, e isso é a deixa para elaborar a idéia de que, se você trata ou se comporta frente a um outro conhecido de uma forma, essa mesma forma voltará a voce mesmo, uma hora ou outra, não necessariamente pela mesma outra pessoa com a que você a tratou de determinada forma, mas muito provavelmente pela mesma pessoa.
Ora, se considerarmos que Proust desde o começo do livro estava já elaborando a idéia da fenomenologia - e, pelas suas biografias, era um admirador confesso do filósofo Henri Bergson - nao é só apenas com a idéia da madeleine que dá a ponta-partida do livro, quando o narrador celebremente sorve uma madeleine e então lembra, ou melhor, capta, toda sua memória no presente, e comeca a narrá-la - que é a base e estrutura do texto -, mas mesmo a idéia de inversão nos relacionamentos, pois o narrador acredita que a maior parte do que percebemos, se for internalizado, a mente capta essas internalizações para assim pensar e agir no ambiente.
De modo que, se voce internaliza um momento, o tempo, suas percepções, de uma maneira fenomenológica, a questão da inversão de relações que é dita explicitamente como idéia parece mesmo fazer sentido, como numa lei de "ação e reação" newtoniana. Isto é, considerando o indivíduo sendo fenomenológico e acreditando nisso.
Pois, se você internalizou o movimento, o tempo, as percepções do ambiente, na sua mente, como a fenomenologia pressupõe de toda forma, quando você se relaciona com um outro, ou outra pessoa, aquilo que você pensa, que resulta no que você age, e transmite o que você sente, tende a voltar para voce, dependendo de qual atitude voce tomou como linha: digamos, linha positiva e linha negativa. É como um intervalo de reflexão interior.
Por exemplo: se você tem uma linha positiva, é provável que, sendo você um indivíduo fenomenológico, digamos assim, o que voltará para você, quando você se relaciona, mas não necessariamente na mesma hora, pode ser muito tempo depois, vai ser justamente alguma variação dessa linha que você comecou nesse relacionamento. Se for positivo, ótimo, volta uma coisa elaboradamente para a linha positiva. Se sua atitude for negativa, sentimentalmente, ou emocionalmente, ou sem respeito etc., essa outra pessoa ou outra coisa tende a te retornar posteriormente - se nao ela própria, alguma outra coisa, mas com o mesmo sentido da reação - na linha negativa que você começou. Nesse sentido, as relações se invertem realmente.
Claro, isso era para ser uma analise literária, e nao filosófica ou mesmo religiosa, mas é impossível de dissociar Proust a esse tipo de idéia. Aquele francês Alain de Bottom, que nao li o livro dele, mas escreveu "Como Proust pode mudar sua vida", deve ter razão, e para mim, essa é a razão. Alem, claro, que passar meses, anos, lendo Proust faz bem para a saúde mental, além de estar agregando na bagagem cultural própria um clássico de enormes proporções.
A análise sobre os salões parisienses, os saraus, a burguesia parisiense, a importândcia do amor-próprio, seu relacionamento com sua mãe, sua vontade de escrever, sua identidade como alter-ego, os pintores, escritores, os quadros e personagens, fica para a próxima vez que eu ler e terminar Em busca do tempo perdido , ok?

 

 

 

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