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Os territórios delineados nos Jogos Olímpicos da China

por Denny Yang

 

 

publicado no Cronopios

www.cronopios.com.br

 

 

Residindo em Taipei (Taiwan) desde outubro de 2007, e por Taiwan fazer “parte” – aspas necessárias – da China, certamente o evento maior programado para acontecer são os Jogos Olímpicos deste ano.

Não tenho tantas informações coletadas em jornais da China a respeito, nem seria o meu intuito aqui mostrar os últimos acontecimentos em relação a times ou seleções de modalidades esportivas que irão aos Jogos. Mesmo assim, me ateria a apenas um acontecimento objetivo, este internacional, que é a intenção de boicote de alguns países e poderosos jogadores globais, para assim, desenvolver um pouco a idéia de territorialidade-mais-delineada no mundo atual.

Diria, com olhar romântico, que os Jogos, nascidos há mais tempo que a era contemporânea, moderna ou medieval, tem como princípio uma frase que, justamente, terminei o meu primeiro romance, “Isabelle”: competir é mais importante que ganhar”.

Segundo a ginasta romena Nadia Comaneci, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, “(…) Os Jogos estão sediados na China, não serão os Jogos da China. Isso é muito diferente. Fortalecer os Jogos não é fortalecer o regime.”, ao que concordaria em número e grau, acrescentando que: os Jogos não estão a serviço do país hospedante, mas o país hospedante está a serviço dos Jogos.

Claro, muitos diriam que seria ingênuo demais acreditar nisso, e que a China estaria lucrando, e muito, com os Jogos. Sim, certamente o país hospedante – qualquer que seja ele – tira dos Jogos sua casquinha econômica… mas o que dizer dos países participantes? Eles também não tiram a sua casquinha econômica ou comercial, às vezes ideológica? No caso, misturam-se os aspectos ideológicos e até filosóficos do cenário internacional, deixando o aspecto comercial para trás, como se essa questão não fosse “tão”-importante-assim no nosso mundo atual, globalizado, integrado e veloz, mandando como premissa os princípios iluministas ( usados de forma muitas vezes “paradoxais”), dando continuidade assim a política internacional dos grupos dentro dos países mais poderosos.

 

 

                                                                   *

 

 

Sei que muitos leitores do Cronópios são a favor do boicote, e chiariam, dizendo que a China tem ditadura comunista, e não respeita os direitos humanos, e pressionando e fazendo o boicote, quem sabe eles não abrem a democracia em seu país?

E muitos, talvez, leitores do Cronópios, que sabem que Taiwan é uma ilha democrática frente a China comunista, pensariam, disparatados: “mas afinal de contas, caro Denny, você defende a democracia ou o comunismo totalitário” ?

Sem responder essa hipotética e ridícula questão, diria que não é tão complexa assim essa questão do interesse, e de usar os Jogos para o próprio proveito de seu país, qualquer que seja ele. Pois qualquer país participante ou hospedante vai querer tirar seu interesse próprio. O cassino começou?

 

 

                                                   *

 

 

Acho que o que prevalecerá será a tradição histórica e o princípio dos Jogos, tradição, essa âncora que nos deixa um pouco mais, em algumas situações mais leves, com o pé-no-chão. E, segundo a tradição, o sentimento gerado pelos Jogos é mais importante e tem mais valor que qualquer interesse momentâneo dos países e nações participantes.

O mundo não funciona mais como há vinte anos atrás. Ele mudou, está mais veloz, mais integrado, e com espaços e territórios mais delineados, sem muito espaço do outro invadir outro, e conseguir invadir seu território e se apropriar desse território a ele, seja no plano físico,military, ou no plano subjetivo-cultural. O que fica mais claro e mais objetivo os interesses comerciais que um tem com o outro. O acontecimento da Rodada de Doha não é por acaso, nesse milênio que nasce. As relações comerciais entre países é o que está prevalecendo.

E, daqui, entendendo um pouco mais do Oriente e, por conseqüência, minhas raízes, parece-me mesmo existir uma diferença – também na tradição histórica e milenar – do Oriente e do Ocidente.

Mas sem se ater somente a básica e universal diferença, e analisando apenas dentro desse contexto. O boicote a China, fica óbvio, que a pressão para mudar o sistema politico chinês nesse momento dos Jogos, ou algumas de suas leis, se baseia puramente nesse interesse comercial, sem, da mesma forma obviamente, cutucar demais o dragão que renasce com tanta força nesse novo milênio, a China, uma potência milenar em sua economia, em seu ensimesmamento histórico, e em sua cultura. Nenhum país cutucaria demais a China a ponto de… estragar qualquer relacionamento comercial direto ou indireto com esse dragão. Apenas pressão, apenas a pressão usual, para que continue respeitando os espaços criados, seja na Europa, no além-oceano, ou mesmo dentro da Ásia. Os territórios estão ja´delimitados, e a época de invasões parece ter passado.

Não, os princípios iluministas, provindos de Diderot, de Descartes, de John Locke naõ estão sendo abandonados. São, talvez, muitas vezes distorcidos por alguns célebres poderosos, que lutam paradoxalmente a favor ( ou seria contra) esses mesmos princípios iluministas. 

Teria algum outro motivo, alguns países ocidentais, quererem boicotar a China que não seja um interesse comercial claro e definido, ou para sustentar uma política internacional duvidosa, ou por uma pressão de delimitação territorial no campo subjetivo-filosófico-cultural?

O crescimento espetacular e assustador (para muitos) da China comunista é visto não apenas em suas nuances históricas e econômicas, mas analisado estratégica-comercialmente por alguns vários poderosos jogadores globais: a China, que tenta controlar sua massa populacional de mais de bilhão de pessoas com um (semi) totalitarismo –  semi, vide zonas especiais econômicas, como Hong Kong e Shanghai.

 

 

                                                 *

 

 

Ok, respondendo a questão ridícula e hipotética: não defendo o comunismo, mas uma diminuição e abertura programada e gradual, com possibilidade de criação de outro paradigma ou sistema politico que respeite o ser humano. Afinal, a queda da União Soviética foi uma lição, de que nada acontece da noite para o dia, nesse caso, e afinal, são mais de bilhão de pessoas a mercê dessa esperada abertura.

Os poderosos jogadores, sem ingenuidade, usam o princípio da sobrevivência, sobretudo, para embasar os jogos comerciais que se incrementam com a chegada dos principais jogos, que não são o financeiro, mas os Olímpicos.

O enfraquecimento político chinês, e de sua imagem no mundo, mas sem machucá-lo demais, por até uma espécie de inter-dependência no mundo globalizado, interessa comercialmente a muitos, apesar que a China é o que mais tem a lucrar com a força da tradição de ser um país hospedante dos Jogos do que qualquer outro país; e, se não tem a lucrar, foi o que mais lucrou até agora, com o advento futuro dos Jogos, administrando as questões-problemas que surgiram, como a do Tibete, por exemplo, dando assim mais tempo, também, para definir sua nova posição frente a configuração do planeta que mudou - que está mais veloz, com menos possibilidade de invasões, com territórios cada vez mais delineados, e com seus muros feitos de redes não apenas físicas e humanas, mas também subjetivas-culturais e, agora, digitais.

 

 

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