A exposição
de Denny Yang
publicado originalmente no Jornal Vagalume
Na vernissage estrondosa - achava que iria ser assim, estrondosa - de sua estréia como pintor, em Paris, nenhuma pessoa veio. Nem seus familiares, nem sua namorada - deram qualquer desculpa.
Ficou com os garçons ali, observando seus quadros. Os garçons constantemente vinham, sorrindo e rindo, servir-lhe champagne ou vinho tinto francês. Ele recusava sempre, e continuava observando seus quadros, olhando ao mesmo tempo atentamente seu relógio. "Tenho tempo, ainda", pensou.
O tempo foi passando, e ninguém vinha em sua vernissage estrondosa. Nem ninguém da imprensa. Bebeu apenas um champagne, e dispensou os garçons da galeria. Todos foram embora, felizes da vida porque ganhariam sem trabalhar.
"É um trabalho de mestre", ele pensava. Mas ninguém via o que ele havia feito. Sentou-se em posição de meditação, e um espírito veio para falar com ele:
"Por que você está assim, triste?", perguntou-lhe o espírito.
"Ninguém veio em minha vernissage, aqui em Paris"
"Por que?
"Acho que ninguém gosta de mim, de meu trabalho"
"Pois é. Tudo o que você fez até agora, para conseguir essa vernissage, foi..."
"Eu passei dias, meses, anos, trabalhando em cima desses quadros. E me esqueci de viver. Acho que por isso que ninguém gosta mais de mim"
"Não é isso, pintor. Não é isso. As pessoas não vieram porque sabem que você é um mestre, e um mestre verdadeiro não precisa de reconhecimento".
Uma pessoa passava andando pela calçada, e viu um pintor dentro de uma galeria em posição de índio falando sozinho. Decidiu entrar, para ver o que se sucedia. Deveria ser uma mostra.
"Com quem falas?"
"Com um espírito. Um espírito dentro de minha cabeça"
"Não, você agora está falando comigo"
O pintor acorda de seus delírios.
"Você quem pintou esses quadros?"
"Não. Foi um grande mestre. Um mestre a quem todos respeitam tanto, que nem vieram apreciá-lo em sua vernissage"
"E por que você veio, não respeita esse grande mestre?"
"Não. Eu sou o único que não respeita esse grande mestre", e o pintor ficou rindo bastante, sozinho.


